
A vida e obra do padre Franco Gioda estão retratadas num livro recentemente publicado pelo bispo de Tete
Quando a guerra transformou Moçambique num labirinto de minas e medo, o missionário italiano Franco Gioda continuou a pedalar por trilhos para chegar às comunidades isoladas. A sua história é contada por Diamantino Antunes, bispo de Tete, através de um livro que acabou de lançar
Texto Juliana Batista
Diamantino Antunes, Missionário da Consolata e bispo de Tete, em Moçambique, lançou recentemente um livro dedicado a Franco Gioda, um sacerdote nascido há quase 88 anos em Turim, Itália, que perdeu os pais na adolescência e que tinha o grande desejo de partir em missão. Essa vontade levou-o a ingressar no Instituto Missionário da Consolata. Depois de ser ordenado sacerdote, aos 24 anos, a sua vida dividiu-se entre Itália e Moçambique. Totalizou cerca de 26 anos de missão em terras italianas – onde faleceu em 2021, aos 83 anos – e 30 anos de atividade missionária em Moçambique, onde enfrentou a guerra da independência e a guerra civil.
Uma missão sob pedais
A bicicleta era o seu principal meio de deslocação em terras de missão. Numa carta enviada em agosto de 1985 ao padre Norberto Louro, superior provincial da Consolata, descrevia a rotina: “Desloco-me sempre de bicicleta por causa do perigo das estradas minadas. Não sei quantos quilómetros terei feito nos últimos meses, mas estou a constatar que o facto de parar e dormir nas comunidades custa-me, mas tenho que aproveitar este tempo em que as zonas de Nipepe e Maiaca estão abandonadas. O administrador dá-me a autorização e sou praticamente o único a deslocar-me nestas zonas assoladas pela guerra”.
O superior pedia-lhe prudência, mas o padre Franco insistia na importância da presença: “Caro Norberto, não tenhas medo. Não me exponho ao perigo, mas não posso deixar de fazer o que a minha vocação exige.” O cansaço era real, mas a urgência pastoral falava mais alto. “Conheces o drama e a situação de tragédia da gente daqui. Já não há vontade de sobreviver, deixa-se correr; falta até vontade de construir a própria palhota ou de cultivar a terra. O homem está destruído. Portanto, levar a esta gente o anúncio e a esperança de Jesus justifica que se corram todos os riscos, mesmo a vida se for necessário. Ver o padre cansado, esfomeado, sujo, enlameado, a partilhar com eles o perigo da guerra faz compreender concretamente que alguém os ama, os procura.”

Sacerdote visita a missão do Sagrado Coração de Jesus, em Nova Mambone, em 1995
A presença que gerava confiança
O livro reúne testemunhos de quem privou com ele. O padre Cassiano Kalima, Missionário da Consolata moçambicano, lembra que o padre Franco “esteve presente no meio do povo moçambicano no tempo difícil da guerra civil”, e também antes dela. “Viveu os momentos que antecederam a independência nacional, viveu a guerra fratricida de 16 anos alastrada em todo o país e que vitimou alguns Missionários da Consolata; foram momentos tristes da história deste povo.”
Quem o conhecia em contexto de guerra, procurava protegê-lo, como recorda o padre italiano Sandro Faedi. “Quando todos viviam em alerta, por medo de emboscadas ou assaltos, o padre Franco não deixava de visitar as comunidades cristãs nas aldeias distantes.” Em várias ocasiões “foi surpreendido por ataques de guerrilheiros, tiroteios e saques”. Nestas ocasiões, “os cristãos esconderam-no para que não o descobrissem”. Quando o assalto terminava, cristãos e não cristãos iam saudá-lo e agradecer-lhe: “Deus protegeu-nos da morte, porque estavas aqui connosco!’”
A irmã Janete Vieira de Paiva, Missionária da Consolata brasileira, recorda o dia em que o padre Franco arrancou de bicicleta depois de ter ouvido falar que “os inimigos” tinham “atacado” uma aldeia e que existiam “muitos mortos” e que “estavam a torturar os que sobreviviam”. Ao chegar ao local da tragédia, disse aos “soldados torturadores” para pararem. “Mais ou menos duas horas depois, veio uma bazuca do lado adversário e atingiu um dos chefes, arrancando a mandíbula esquerda. Este facto causou-lhes profundo temor. Correram até ao padre, pedindo desculpas, por não lhe terem obedecido.”
O encantador de serpentes
O padre Ângelo Romano, Oblato de São José, destaca que o padre Franco enfrentou na selva diversos perigos, que incluíram “minas, animais ferozes, cobras e plantas venenosas”. Um dia, o curandeiro de Maúa, reconhecendo o bem que o missionário italiano fazia ao povo, preparou-lhe uma “vacina natural” com veneno de cobra e cinzas, que o religioso ingeriu quatro vezes.
Foi mordido várias vezes por cobras e nunca foi afetado. “Um dia, aconteceu que uma cobra voadora saltou de uma árvore e picou-o. As pessoas ficaram assustadas, à espera do momento fatal, contando até oito, porque depois dessa hora as pessoas morrem. Mas o padre Franco deu uma gargalhada tremenda e continuou a andar. Testemunhas dizem que ele foi mordido pelas cobras cinco vezes e nunca lhe aconteceu nada, nem mesmo uma pequena dor.”
Situações idênticas envolveram outros animais selvagens. “Noutra ocasião, as crianças que o acompanhavam numa viagem contaram que, por duas vezes, foram surpreendidas por um leão, pensando que naquele momento teriam de morrer. Mas quando a fera sentiu o olhar do missionário, virou-se e fugiu.”
O padre Ângelo descreve que em tempos de guerra, muitos foram atingidos por balas, mas ele não. “Dizem que as balas se aproximavam dele e depois se desviavam. Os soldados passaram a ter medo dele.” Segundo este sacerdote natural do Peru e missionário em Tete, numa carta do “temido general Gonçalves”, podia ler-se: “É preciso ter cuidado com esse branco, esse missionário chamado Franco, porque parece que os antepassados o estão a vigiar. Mas se o encontrarem sozinho, evitem olhá-lo diretamente nos olhos e tentem dar-lhe um tiro seguro”. O padre Ângelo refere que nunca ninguém teve a coragem de cumprir essa ordem. “Se os animais o temiam, os homens também.”
Juventus nas aldeias de Moçambique
A paixão do padre Franco pela Juventus – clube de Turim, a cidade onde nasceu – também é lembrada por Diamantino Antunes. O missionário “ouvia pela rádio o relato do jogo da sua equipa” sempre que podia e era um promotor da prática desportiva, algo visível na sua preocupação em preparar campos e em criar equipas de futebol. Uma sobrinha do padre Franco – chamada Gabriela – fazia parte da direção do clube e enviou para o tio caixas de equipamentos desportivos da Juventus que “foram distribuídos entre as diferentes equipas da Marávia”, no distrito de Tete.
Um país devastado pela guerra
O bispo de Tete explica no livro que a 4 de outubro de 1992, a Frelimo e a Renamo “assinaram os acordos de paz após 16 anos de guerra civil, que resultou num milhão de mortos e milhões de deslocados internos, uma devastação incalculável e a colocação de dois milhões de minas terrestres”. Depois deste período, o país “precisava de ser recuperado e reconstruído do início ao fim, tanto material como socialmente”. Num contexto de reconstrução, a Igreja Católica “criou infraestruturas de promoção humana”, como escolas, centros para crianças desnutridas e dedicou-se à assistência de pessoas com deficiência, refugiados, doentes e idosos.
Artesão da educação
Para além da atividade missionária no terreno, Franco Gioda revelou-se um artesão da educação. Enquanto superior provincial da Consolata em Moçambique, teve um contributo decisivo no nascimento da Universidade Católica de Moçambique, um projeto que abraçou como instrumento de justiça e paz, sendo responsável por mobilizar os primeiros missionários para a sua reitoria e docência.

Padre Franco batiza jovem na igreja da Missão de Miruro, onde, há 100 anos, chegaram os primeiros Missionários da Consolata enviados para Moçambique
Contudo, o seu testemunho de entrega renovou-se de forma surpreendente em 2010 quando, aos 72 anos, partiu para Moçambique pela terceira vez. Longe de procurar um retiro, dedicou-se à reabertura de missões nos distritos da Marávia e do Zumbo, regiões que enfrentavam um vazio espiritual e abandono de décadas. Com a sua inseparável agenda, mapeou pessoalmente 108 comunidades isoladas – algumas das quais não viam um sacerdote desde 1970 – e fundou a paróquia de Matambo, provando que a urgência de anunciar o Evangelho não conhecia o cansaço da idade.
O padre Ananias Cambo Milissão, vigário do padre Franco na paróquia de São Paulo de Tete, descreve a agenda do missionário como o seu bem mais precioso porque “nela estavam detalhados todos os planos para a missão”, nomeadamente o nome e as distâncias das comunidades, o número de cristãos e catecúmenos existentes, as vias de acesso a cada local, os dias de visita pastoral, os contactos e as pessoas de referência de cada zona, os planos de formação dos animadores e dos catequistas e as necessidades pastorais de cada comunidade. O livro “Padre Franco Gioda: Uma vida portadora de consolação” foi publicado pela Consolata Editora, em Portugal, e encontra-se disponível no Consolata Museu, em Fátima.

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