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Gerardo Secondino: “Gosto do Allamano, gosto do Instituto, gosto da Consolata”

O irmão Gerardo Secondino assinala no próximo dia 25 de agosto 25 anos da sua Profissão Religiosa. Conheça melhor este missionário da Consolata italiano numa entrevista feita a partir da sua comunidade, no Cacém

Gerardo Secondino, missionário da Consolata, nasceu em Pietraperzia, na Sicília, Itália, em 17 de julho de 1959. Tem agora 62 anos. Seus pais tiveram seis filhos, cinco rapazes e uma rapariga. Secondino é o penúltimo. Dele, dizem os amigos que é de uma simplicidade muito genuína, que se entrega em tudo, que é muito dedicado ao trabalho. Gosta de animais (pode mesmo ficar muito zangado se alguém os maltrata), fala com eles e com as plantas; gosta do ar livre, de sentir a natureza, valoriza a amizade e gosta de partilhar. E, quem tem o privilégio de saborear os pratos que lhe dá prazer cozinhar, considera-o um bom cozinheiro. 

Nesta entrevista, Gerardo confessa a sua paixão por Moçambique, onde fez missão durante mais de uma década, fala com emoção da experiência de acolhimento e ;convivência com refugiados muçulmanos que teve nos últimos dois anos na comunidade da Consolata onde vive, no Cacém, e revela, sem hesitar, que se tivesse que voltar atrás, voltaria a ser novamente irmão Missionário da Consolata. – Entrevista conduzida por Albino Brás

 

Como foi o despertar da sua vocação?

A minha vocação é uma vocação tardia. Entrei no Instituto Missionários da Consolata (IMC) aos 33 anos e escolhi imediatamente a vocação de irmão porque era onde me sentia mais chamado. A minha vocação nasceu no santuário da Consolata, em Turim. Por causa de alguns cavalos que eu cuidava, eu recorria a um contabilista que trabalhava ao lado do santuário. Um dia eu precisei de ir lá e ele não estava. Como o santuário da Consolata estava ali tão perto, decidi entrar. Decorria uma missa, presidida por um missionário da Consolata, que nunca cheguei a saber quem era. Na homilia ele falava sobre qual era o nosso compromisso missionário. Terminada a celebração, fui à minha vida e passados três meses voltei lá novamente. E dessa vez entrei já com o propósito de participar na missa. Estava lá outro padre a celebrar e falou de uma experiência missionária de jovens nas missões, mais especificamente no Quénia, durante um ano. Isso despertou o meu interesse. Fiz mesmo o curso de Swahili, de modo a aprender algumas palavras. Fiz um ano de preparação, e depois que chegou a hora de partir, o padre que seguia o grupo que se preparava para ir para a missão, disse-me: «Olha cá para mim: é inútil que tu vás agora para a missão, tu tens vocação missionária». 

 

Qual foi a sua reação?

Eu entrei logo em crise. Por três anos não coloquei mais os pés na Consolata. Mas a verdade é que o bichinho da vocação continuava a mexer cá por dentro. Passados esses três anos voltei à Consolata, encontrei o mesmo padre, Álvaro Domingues, e começou a minha caminhada vocacional e missionária. Fiz o Postulantado, depois o Noviciado, seguiu-se a Primeira Profissão, a 25 de agosto de 1996, e comecei logo a trabalhar. Primeiro em Vittorio Veneto, onde tinha feito o Noviciado; ali trabalhei como ecónomo. Em 1998 vim para Portugal, com o objetivo de aprender português para depois ir para Moçambique. Foram três meses na comunidade do Cacém e foram depois também três meses de uma experiência missionária em Moçambique. Voltei para Itália, para a Certosa Di Pesio, onde coordenei os trabalhos de reestruturação da capela, muito antiga, de 1173 e também da ala Cúneo; dois anos depois, já no ano 2000, fiz a Profissão Perpétua. Em seguida trabalhei quase dois anos em Milão, na loja de artigos religiosos que o IMC tinha ali. 

 

Como é que a sua família reagiu à sua vocação? 

No principio, a minha mãe e a minha irmã não aceitaram. Foi um choque para elas. A minha mãe quase que não me falava. Depois que fiz a primeira Primeira Profissão e começaram a  aceitar um pouco. Mas não estava lá ninguém Já o meu pai, era indiferente. O que mais me surpreendeu foi a minha mãe, católica praticante, e que até tinha um irmão padre. Mas foi mais tarde, ao fazer a Profissão Perpétua que finalmente começaram a aceitar. Aí, já estiveram presentes. Hoje, já não tenho os meus pais vivos, estão no Céu. 

 

Entretanto, foi destinado a Moçambique. Fale-nos dessa etapa.

Em 2002 fui destinado a Moçambique, ficando num primeiro momento em Cuamba. No dia 6 de janeiro de 2003 fui para Maúa, onde fiquei durante 10 anos. Ali, fiz pastoral na Paróquia de São Lucas. Ajudava na catequese e a preparar os fiéis para os sacramentos, especialmente do Batismo e do Casamento. Trabalhei na Escola de Artes e Ofícios de formação de carpinteiros e de pedreiros, durante oito anos.  

Porém, por um problema de saúde, voltei para a Itália, para tratamentos. Os médicos sugeriram que ficasse por cá, na Europa. Permaneci alguns meses na Itália e em 2014 fui destinado a Portugal. Durante dois anos tive por base a Casa regional, em Lisboa, mas ia com o seminarista (agora padre) Geoffrey todos os dias para o Cacém, onde não havia ainda uma comunidade residente. Em 2016 abriu ali a comunidade formativa, da qual ainda faço parte. Colaboro na formação dos seminaristas, cozinho, cuido da quinta, da horta, dos animais, e de tudo o resto que é necessário.

Ainda em Moçambique, há alguma situação que o tenha especialmente marcado, ali, como experiência missionária?

Sim. A Escola de Artes e Ofícios, em Maúa, que surgiu da necessidade de formar pessoas em várias profissões: pedreiros, carpinteiros, … Os estudantes vinham das povoações muito pobres das missões, e muitos não tinham dinheiro para pagar as matriculas. A estes dávamos-lhe a oportunidade de semearem e cultivarem naqueles terrenos, depois vendiam alguns produtos e assim ajudavam a Escola a suportar os custos dos seus estudos. O curso durava três anos e saía-se de lá com a qualificação de pedreiro ou carpinteiro, diploma que até era reconhecido pelo governo Moçambicano. O que mais me surpreendeu: dois rapazes muito pobres e com algumas deficiências conseguiram terminar o curso, e quando acabaram choraram muito. Recordo sempre essa situação. Também fiquei muito emocionado. 

 

Voltando a Portugal, tiveram aqui na vossa comunidade, no Cacém, alguns refugiados a viver por mais de 20 meses. Como viveu essa experiência?

Eram três refugiados: o Ismael e o Salim, ambos muçulmanos, do Sudão do Sul, e o Bright, da Nigéria. Apesar de serem de religiões e culturas tão diferentes da nossa, integraram-se de tal maneira bem com a nossa comunidade que o dia em que se despediram de nós, por já ter terminado o programa de acolhimento e já terem encontrado trabalho, não conseguiram segurar as lágrimas. A minha experiência foi muito boa. Apreciei muito o esforço que esses rapazes fizeram, aqui. Tendo vindo da terra deles, e sobretudo, tendo sofrido tudo o que eles sofreram para chegar até aqui. O Ismael, por exemplo, viajou durante cinco anos, atravessou desertos, o Mediterrâneo em barcos lotados e precários, campos de refugiados, enfrentando perigos, para chegar até aqui. E, depois,  chegar aqui e encontrar uma comunidade como a nossa, que os acolheu desta maneira. Fizeram um grande esforço, com muita humildade e muita paciência, para aprender português, para se inserirem numa cultura absolutamente diferente. Eles manifestaram muita gratidão por tudo.

 

Mas, cabe a pergunta: Como foi possível uma comunidade formativa, de cristãos católicos consagrados (padres, irmãos e seminaristas) conviverem debaixo do mesmo teto com muçulmanos… Parece mistura de água com azeite. Qual foi o segredo?

Simplesmente, sermos nós mesmos! Ninguém mudou a sua forma de ser. Cada um respeitando o outro como gostaria de ser respeitado. Se não podia comer carne de porco, comia de frango ou de vaca… Sem problemas. Nós fazíamos as nossas orações e eles as deles. Mas em muitos momentos do dia fazia-se vida em comum. Para mim, foi uma graça muito grande, uma experiência muito bonita, super-positiva, que repetiria ainda muitas mais vezes. O amor foi o segredo para a convivência e para tudo o resto.

 

Como vê hoje a vocação do irmão?

Vejo-a em vias de extinção. Antes havia padres, irmãos, irmãs… Agora quase só se fala em leigos; sublinha-se muito a vocação laical, e fico contente por eles, que seja assim. Mas a vocação do irmão, perde-se. Leigo é leigo. Mas a consagração para a vida consagrada, é outra coisa. 

 

Acha que a valorização e a emancipação do leigos na Igreja, esvaziou, digamos assim, a natureza e a identidade dos irmãos, como religiosos consagrados? 

A vida religiosa não esvaziou nada. Bem pelo contrário. Acho que até melhorou um pouco. Continua a haver espaço para os irmãos. Mas acho que é preciso encontrar um caminho especifico só e exclusivamente para eles. Eles têm uma maior disponibilidade para o viver quotidiano, para o trabalho missionário. Parece-me que esse é um aspeto muito importante. O irmão pode fazer a diferença em muitas situações. Na Escola de Artes e Ofícios onde trabalhei, em Moçambique, ficava bem claro o papel do irmão como consagrado. Eu acho que a vocação do irmão não é bem entendida para o resto da sociedade. 

 

Como assim? Explique!

A vocação do irmão tem que ser uma vocação muito humilde. Nós não existimos para ‘fazer barulho’, como nos pede o nosso fundador. É difícil de explicar, mas a vocação de irmão para mim é uma vocação maravilhosa. Gosto de ser irmão, de dar uma palavra de conforto, de ouvir quem precisa de falar, de ser ouvido, de ajudar quem precisa de ajuda. Sem fazer coisas grandes, nem castelos ou coisas enormes. Fazer aquele pouco de cada dia; aquelas coisas pequenas que depois te enchem a vida.  (Neste momento, a conversa é interrompida por um telefonema. Pausa. Conta depois que era um rapaz que veio ali há uns 15 dias.). Ele tinha problemas com a esposa, pediu um padre, para se confessar. No momento, não estava nenhum. Eu não te posso confessar, nem te posso dar a absolvição, mas posso-te ouvir, disse-lhe eu. Falámos, falámos, ele explicou qual era a sua situação e eu tentei ajudar com as poucas palavras que sei usar, e a verdade é que ele saiu daqui tranquilo, sereno… São estas coisas que te enriquecem a vida. Também aqui com os hortelões da nossa Quinta, que tem hortas no nosso terreno; muitas vezes ficamos horas a falar sobre coisas da vida. Não tenho, portanto, nenhuma dúvida quanto à identidade da vocação do irmão, hoje. 

 

Mas considera, no entanto, que a vocação à vida religiosa missionária se deveria apresentar de uma forma mais explicita?

Sim, mas é preciso ver também que a sociedade de hoje mudou, e muito. Não sabemos bem para onde caminhamos. Talvez para uma Igreja maioritariamente laical. 

 

Sentiu em algum momento algum tipo de crise, de querer desistir?

Todos os dias! As crises fazem-te crescer. São um desafio. 

 

Voltaria a ser irmão?

Claro! E Irmão Missionário da Consolata. Eu gosto do  Allamano, gosto do Instituto, gosto da Consolata. Foi Ela que me chamou! Foi no santuário da Consolata em Turim que eu conheci os Missionários da Consolata!

 

O que é que mais o faz feliz, irmão Secondino?

Estar com os outros, falar com os outros, dialogar com os outros. Não me vejo como monge de clausura. Eu sou de área aberta, de campo, de mato… Preciso de me relacionar. Gosto de pessoas. 

 

Imagine que tem diante de si, agora mesmo, uma multidão de jovens em busca de sentido. O que lhes diria? 

Peço-lhes que confiem sempre na oração. A oração é a única coisa que te tira das dificuldades. Mas a oração de coração, não a oração mecânica. Não temam abrir o coração a Jesus, a Nossa Senhora, Eles nunca nos traem, sempre nos ajudam. 

Nota: No domingo, 22 de agosto, pelas 11h, no Centro Missionário Padre Paulino (Quinta do Castelo), no Cacém, vai ser celebrada uma missa em ação de graças pelas Bodas de Prata de Profissão Religiosa do Ir. Gerardo Secondino. 

um comentário

  • Isabel Viana diz:

    Amei esta entrevista/testemunho de vida que faz jus ao maravilhoso e simples ser humano e religioso, que tenho o privilégio de conhecer. Muito saúde e vida, para que continue sua boa e nobre missão.