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Em memória do padre Norberto Ribeiro Louro

(Publicado em: 11/05/2022)

No ano de 1992, após ter terminado a minha formação inicial em Itália, regressei a Portugal para fazer a profissão perpétua e receber o envio missionário para Moçambique. Nessa altura, tive a sorte de conhecer o padre Norberto Ribeiro Louro, e a graça de ser ele a presidir à celebração Eucarística, a 22 de novembro de 1992. Fez uma homilia muito sentida, primeiro dirigida a toda a assembleia e, depois, dirigiu-se a mim com estas palavras:

“Para ti, Irmã Anistalda, esta celebração deve imprimir-te coragem, ousadia. Quem arrisca, não arrisca pouca coisa, arrisca toda a vida. Tu vais em nome de Jesus Cristo que se fez Palavra aqui nesta comunidade, que se fez Palavra para te instruir, que se fez Pão para te alimentar. Tu vais em nome d’Ele. Foi Ele que te convocou, que te formou, que te chamou. É Ele que te envia, não tenhas medo.

 

Procura nessa tua caminhada não mostrar que sabes muitas coisas. Ser missionário, mais que ensinar muitas coisas, é pôr-se a caminhar, é ser companheiro de viagem de quem vais evangelizar, é pores-te a caminhar ao lado deles, não porque sabes muito, mas porque vives muito. O mundo de hoje, mais do que de mestres, precisa de santos. Mais do que mestres, precisa de quem demostre com a sua vida as convicções que tem, a vida que Cristo lhe infundiu.

Faz-te companheira de viagem daqueles que vais encontrar. Não lhes leves grande sabedoria, grandes coisas. Leva-lhes a tua vida simples, a tua vida pobre. Arma-te, só da palavra de Deus e da tua pobreza, da tua fragilidade. Ser missionário é dar a vida. Tu vais dar a vida, não vais fazer outras coisas, vais dar a tua vida.

 

E é este dom da vida total, da vida radical a Cristo a quem te vais consagrar para toda a vida, e aos irmãos, como reflexo do Cristo que está em ti. É esta experiência de fé que vai converter. Não és tu que convertes, quem converte é Cristo que tu levas em ti. As pessoas, olhando para ti, convertida por Cristo, hão-de pensar e ver que é bom converter-se, que vale a pena converter-se, que vale a pena ser entusiasta do Reino de Deus, que vale a pena deixar tudo e ir proclamar o Reino de Deus.

Vai! Esta comunidade acompanha-te. Nós acompanhamos-te. Os teus pais acompanham-te. O Instituto Missionário da Consolata acompanha-te e, hoje, também eu. Estes dois institutos fundados, pelo beato José Allamano, alegram-se por ver que tu te entregas totalmente. Vais também em nome desta comunidade que gerou e deve continuar a gerar vocações. Não deve parar por aqui. Gerou e deve continuar a enviar pessoas para proclamar a fé de Cristo, para testemunhar com a sua vida a própria fé, para partilhar a sua fé. Como diz o Papa João Paulo II, ‘Quem quiser enriquecer a sua fé partilhe-a com os outros, mostre-a aos outros, então a sua fé há-de enriquecer-se.’”

 

As suas palavras foram um verdadeiro programa de vida e tocaram-me no fundo do coração. Este dia foi especial para mim em todos os sentidos. Ter encontrado o padre Norberto foi, para mim, o presente de Deus no dia em que me consagrava totalmente e para sempre a ELE. O padre Norberto era um bom conhecedor de Moçambique e aumentou em mim o desejo de partir para a missão e de me doar a Deus e aos irmãos. Neste dia, foi lançada a semente da nossa amizade.

 

O instituto pediu-me para fazer um estágio na administração geral, portanto, não pude partir logo após receber o envio. Voltei para Itália e regressei a Portugal no ano seguinte. Encontrei-me de novo com o padre Norberto, e partilhámos as nossas caminhadas. Eu disse-lhe que ia partir para a missão em meados de outubro, e ele disse-me que também tinha sido destinado outra vez a Moçambique, onde iria ser o mestre dos noviços, que antes de ir para lá passaria pelo noviciado do Quénia e que chegaria em finais de outubro. Combinámos que no dia da sua chegada eu iria encontrá-lo ao aeroporto para lhe dar as boas vindas.

 

Dia 13 de outubro de 1993 cheguei a Moçambique, a minha terra prometida. Depois de tratar da documentação e retirar as bagagens saí e, qual não foi a minha surpresa, ao encontrar ali o padre Norberto que me deu as boas-vindas e ainda me disse – “Ó cachopa, não tens vergonha? Já há um ano que te enviei e só agora é que tu chegas?” – Foi um raspanete simpático, e eu fiquei muito contente por à minha chegada ter logo encontrado alguém conhecido e com quem podia contar. Passados alguns meses fui destinada a Maputo. A sede do noviciado era em Laulane, portanto tivemos a oportunidade de nos encontrar em diferentes ocasiões e partilhar as nossas experiências. Assim a nossa amizade fraterna foi-se consolidando.

 

Em 1998 parti para Itália, em 2001 vim para Portugal e, em 2004, fui destinada à Guiné-Bissau. Neste período, cruzámo-nos por várias vezes durante as suas andanças como conselheiro geral. Cada encontro era ocasião de partilha. Durante a minha permanência na Guiné-Bissau, das duas vezes que vim de férias a Portugal, era ele superior regional e tivemos a oportunidade de nos encontrarmos e partilhar a minha experiência no meio daquele povo. Ele tinha sempre palavras inspiradoras que me encorajavam e animavam. Era um bom ouvinte e conselheiro.

 

Em 2012 viajei diretamente da Guiné para Itália, onde tinha sido destinada, e em 2013 vim de férias a Portugal para visitar e estar um pouco com os meus pais idosos. Tinha chegado há poucos dias e pediram-me para ir fazer uma semana de animação missionária em Cardigos, com o padre Norberto Louro, com vista à celebração das suas bodas de ouro sacerdotais. Não pensei duas vezes e agarrei esta oportunidade.

Foi, realmente, uma ocasião de ouro onde pudemos partilhar as nossas vivências missionárias com a comunidade local e entre nós. Foi uma semana diferente de outras em que tinha estado e, ao mesmo tempo, muito especial. Era tempo de férias, quase só havia idosos e, praticamente, só houve celebrações Eucarísticas. Em cada celebração partilhávamos as nossas experiencias missionárias e o padre administrava o sacramento da unção dos enfermos aos maiores de 60 anos, que eram a maioria. Outras vezes, à totalidade dos participantes. Houve também celebrações Eucarísticas nos vários lares de terceira idade e visitámos também ao domicílio as pessoas idosas e doentes que não se podiam deslocar.

 

Durante essa semana missionária foi lançado o livro do padre Norberto –“A Missão é simpática”. Eu pedi-lhe para ele autografar o livro e colocar uma dedicatória. Ele escreveu – “Boa Anistalda. Mais palavras para quê? O sentimento que nos uniu e se confirmou nestes dias vale mais do que muitas palavras. As que aí vão no livro, bem as conheces porque as viveste na tua vida missionária. Se estas acrescentaram alguma coisa, sinto-me feliz. Com amizade e orgulho de pertencermos à mesma família, padre Norberto Louro.”  

 

Regressei a Portugal em finais de 2018 e, desde então, fomo-nos cruzando nesta terra de Santa Maria em vários lugares e por distintas ocasiões. Era sempre uma alegria o reencontro. Nunca fomos de telefonemas ou escritas, mas entre nós houve esta amizade fraterna e espiritual que ia sempre crescendo com o passar do tempo. Ele foi sempre uma pessoa afável, bondosa, disponível, simples e, sobretudo, simpática. Fica-me um certo senso de arrependimento de nem sempre me ter deixado nortear pelas suas sábias palavras. Por motivos alheios à minha vontade, não pude prestar-lhe a última homenagem, mas sei que a nossa amizade continua e onde ele se encontra continuará a acompanhar-me e a interceder por mim.

Obrigada por tudo padre Norberto. Até sempre. Descansa em paz.

 

Texto: Irmã Maria Anistalda de Babo Ferreira Soares, Missionária da Consolata

 

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