A missão entre palhotas, burocracias e esperança

Padre Manuel Magalhães tem 55 anos e é natural de Ermesinde. Atualmente está em missão em Roma

Aos 28 anos, o padre Manuel Magalhães não imaginava que celebraria missa em palhotas ou que batizaria centenas de pessoas de uma só vez. Depois de 14 anos em Moçambique e de uma passagem exigente pela administração dos Missionários da Consolata em Portugal, vive agora uma missão diferente em Itália

 

O padre Manuel Magalhães tem 55 anos e é natural de Ermesinde, no distrito do Porto. Tinha 28 anos quando foi ordenado sacerdote e, com essa idade, estava longe de adivinhar os cenários que o esperavam. “Aos 28 anos não imaginava que iria celebrar missa em palhotas e ter uma simples mesa como altar. Não imaginava que iria batizar, crismar e até casar centenas de pessoas de uma só vez. Não imaginava o que significava acompanhar comunidades cristãs que só têm missa uma vez por ano”, refere o Missionário da Consolata, em resposta às perguntas enviadas por email pela FÁTIMA MISSIONÁRIA.

 

Entre 2000 e 2014, o missionário percorreu mais de 330 comunidades em Moçambique, passando pela Machava, Vilanculos, Mapinhane, Cuamba, Mecanhelas e Massinga. Trabalhou na rádio, celebrou em várias capelas em diversas línguas, acompanhou e formou centenas de catequistas e apoiou crianças e jovens na saúde e na escola. O que lhe deixa mais saudades são as visitas às comunidades, onde, mesmo “em momentos difíceis e diante de tantas injustiças”, encontrava “a alegria de celebrar a Palavra e a presença de Deus no meio do seu povo”. A Igreja moçambicana, afirma, tem “uma fé provada na dor e na perseguição”, que a torna “ainda mais forte”.

Depois de regressar a Portugal, assumiu a administração dos Missionários da Consolata. Nessa função, percebeu que os missionários nem sempre estão preparados para trabalhar num mundo “cheio de interesses financeiros e de burocracias”. Gerir os bens de um instituto religioso “torna-se um problema” porque é necessário que haja uma adequação “ao modo de fazer e pensar dos entes económicos que buscam o lucro”. Deparar-se com uma diminuição das ofertas dos benfeitores também não foi fácil, porque isso torna mais difícil “apoiar tantos e grandes projetos em várias missões”.

 

Atualmente, o missionário está ao serviço em Itália, país onde fez o noviciado, a primeira profissão religiosa e estudou Teologia. Regressar ao lugar onde professou não foi apenas “matar saudades”. “Julguei que voltar a Roma seria apenas dar continuidade ao passado: já sei a língua, conheço a cidade, a cultura, mas na verdade vejo que tudo é novidade. A cidade, as pessoas e o instituto mudaram. A missão é dinâmica e isso exige que tenha de me adaptar à nova realidade”, afirma.

 

Nota igrejas mais vazias — algo que já não o surpreende — mas reconhece que os valores cristãos continuam presentes na sociedade. Surpreende-o o respeito de muitos imigrantes pelo cristianismo e os gestos de misericórdia de quem não se identifica como cristão. Também lhe chama a atenção a presença quase diária da voz da Igreja nos meios de comunicação social. “Os batismos, os matrimónios ou os praticantes podem ter diminuído, mas isso só significa que se a messe já era grande, tornou-se ainda maior.”

 

Em Itália, é secretário geral dos Missionários da Consolata, uma missão discreta e essencial. “Quando se pensa em ser missionário não é este o tipo de missão que temos em mente. Mas sim, é também missão”, sublinha. O cargo exige contacto regular com comunidades espalhadas pelo mundo. “Constantemente contacto os missionários para lhes transmitir informações, mas também para estabelecer e fortalecer entre todos uma ligação que está radicada na espiritualidade do nosso fundador, São José Allamano, que queria que fôssemos uma família missionária.”

 

Sobre o futuro da missão em Portugal, acredita que será necessário “trabalhar mais juntos, dar mais espaço aos leigos e tornar as comunidades cristãs menos institucionais e mais colaborativas e familiares”. Para ele, a missão nunca foi fácil e nunca será: “Jesus não apresentou aos discípulos uma missão fácil; terá sempre os seus desafios”. Aos jovens, deixa um apelo: “o coração humano não é feito para o que é efémero; é preciso coragem para fazer escolhas que definam o caminho”. E conclui com esperança: “é possível escolher viver os valores do Evangelho, mesmo no meio da algazarra de tantos influenciadores digitais; é possível escutar a simples voz do Bom Pastor”.

 

Texto: Juliana Batista

Missionário junto dos seus pais, na celebração de envio para Moçambique, onde esteve entre 2000 e 2014

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