
Padre João Nascimento tem 63 anos e é natural de Chaves
Num território onde falta quase tudo, a Missão de Massangulo tornou‑se biblioteca, sala de informática, espaço de brincadeira, centro de apoio aos mais frágeis e hospedaria para quem chega de longe. É ali que a vida se organiza e a esperança resiste
É no distrito de Ngaúma, na província moçambicana do Niassa, onde a população é, “na sua grande maioria, muito pobre” que está ao serviço João Nascimento, um padre Missionário da Consolata de 63 anos, natural de Chaves, distrito de Vila Real. Há nove anos na Missão de Massangulo – fundada pelos Missionários da Consolata em 1928 – o sacerdote acompanha de perto a vida daquele povo. É também ali que se ergue o Santuário de Nossa Senhora da Consolata de Massangulo, lugar de peregrinação para toda a diocese de Lichinga.
Aquele povo – explica o pároco de Massangulo – enfrenta “imensas dificuldades para cobrir necessidades básicas, sobrevive à base de uma agricultura de subsistência”, e muitos dedicam-se à “destilação de aguardente a partir da cana-de-açúcar e à produção de carvão”. A alimentação é “quase toda feita a partir da farinha de milho (chima), de leguminosas e verduras extraídas de pequenas hortas”, com a carne e o peixe a serem “raramente” consumidos, escreveu o missionário, em resposta às perguntas enviadas por email pela FÁTIMA MISSIONÁRIA.
O sacerdote, que guia 13 comunidades cristãs onde predominam agricultores “à procura de terras férteis”, refere que um dos problemas maiores daquela região “é o alto índice de analfabetismo e a baixa escolarização”. No distrito onde trabalha há “total carência de industrialização” e “falta de emprego”, que afeta sobretudo os jovens. “Esta situação faz aumentar grandemente a gravidez prematura e a delinquência dos rapazes, que tentam, quase sempre em vão, sair desta estagnação através de pequenas iniciativas comerciais.”
O clima, por sua vez, não favorece os projetos agrícolas, porque a estação chuvosa “costuma ser de uma densa pluviosidade que provoca forte erosão dos solos e se perde pela falta de diques ou represas de contenção”. O centro de saúde local “acolhe diariamente uma elevada quantidade de pacientes, mas oferece um serviço de fraca qualidade, muitas vezes corrompido pelos funcionários, que extorquem dinheiro aos doentes para cobrirem os seus magros salários”.
O missionário celebra cerimónias religiosas e envolve-se na catequese, mas não só. Ao serviço da população, a Missão de Massangulo disponibiliza uma biblioteca, uma sala de informática, um espaço para atividades lúdicas e artísticas, um serviço de apoio domiciliário a idosos e instalações para a hospedagem de visitantes.

Missionário foi ordenado sacerdote em Moçambique, em 1993
O padre João chegou pela primeira vez a Moçambique em 1991 e foi lá ordenado sacerdote em 1993. Instalou‑se no país em plena guerra civil – que opôs o governo da Frelimo e as forças da Renamo entre 1977 e 1992 – e, escassos meses depois, viveu uma experiência marcante. “Na tentativa de encontrarmos um dos nossos colegas caído numa emboscada da Renamo, sofri um acidente de viação no vizinho Malawi e parti a bacia. Fiquei mais de dois meses quase imóvel no hospital Elizabeth Queen”. O cenário encontrado naquele hospital em contexto de guerra levou-o a “fugir, de muletas”, e a regressar a Portugal.

Religioso trabalhou num território “densamente islamizado” na Costa do Marfim
Entre 2011 e 2016 trabalhou na paróquia de Marandallah, na Costa do Marfim. Num território “densamente islamizado”, a sua relação com os habitantes e com os chefes muçulmanos, fê-lo sentir-se em casa. Esteve envolvido na criação do ‘Jardim da Amizade’, um terreno “oferecido à paróquia pelo chefe muçulmano local”, demonstrativo da “relação amigável” entre diferentes religiões.
Este verão, a Missão de Massangulo acolhe voluntários enviados pelos Missionários da Consolata de Águas Santas, no distrito do Porto. O objetivo é criar o Parque Comunitário da Missão de Massangulo, que deverá acolher pessoas de todas as idades para momentos de confraternização, fé, estudo e descanso. O missionário refere que o local destinado ao projeto situa-se numa zona muito movimentada, mas que está “abandonado”, pelo que deverá tornar-se numa mais-valia.
Aos 63 anos, o religioso faz um balanço positivo do seu percurso: “A minha vida missionária é plenamente agraciada. Não me imagino a viver outro tipo de vida nem acredito que haja outra mais bela. Parece-me, entre todas as outras formas de vida, a mais completa”.
Texto: Juliana Batista
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