Entre reflexões, cânticos e danças africanas, a Família da Consolata celebrou a sua 36ª peregrinação anual. O encontro comemorou o legado de São José Allamano e uniu diferentes gerações com um apelo renovado à paz, à justiça e à solidariedade com os mais pobres

 

A 36ª Peregrinação da Família Missionária da Consolata levou cerca de seis mil pessoas a Fátima, no passado dia 21 de fevereiro. À chegada, muitos saíam dos autocarros com flores nos braços. “Trouxemos ramos de flores para oferecer a Nossa Senhora: um ramo com camélias bordô e outro com orquídeas amarelas e brancas”, contaram à FÁTIMA MISSIONÁRIA Cristina Gomes, de 53 anos, e Aldina Loureira, de 66. “São flores dos nossos jardins, fruto do nosso trabalho e amor”, disseram as peregrinas de Cantanhede.

Cristina e Aldina deixaram na Capelinha das Aparições flores dos seus jardins

 

O acolhimento aos peregrinos foi feito por Leigos Missionários da Consolata e pelo padre italiano Fabio Malesa – vice-superior da Região Europa dos Missionários da Consolata – que disse aos peregrinos que “o essencial da mensagem de Nossa Senhora de Fátima pode ser dito de forma muito atual e muito concreta: não te habitues ao mal; volta ao coração; escolhe a paz”.

 

As meditações da via-sacra desta peregrinação – que foi encenada por jovens de Ribeirão (Vila Nova da Famalicão) nos Valinhos – fizeram referência aos “mais pobres”, àqueles que “sofrem injustiças” e também aos que cometem tais atos. Em conjunto, os peregrinos pediram a Deus a capacidade para “aliviar o peso dos que carregam a cruz pesada da doença, da solidão e da marginalização” e também a coragem para “denunciar o mal”.

 

Gustavo, Cláudia e Leonor encenaram uma das estações da via-sacra nos Valinhos

Gustavo Oliveira, Leonor Faria e Cláudia Sampaio encenaram uma das estações desta via-sacra. “Inicialmente tínhamos alguma vontade de nos rir, mas isso passou. Não temos vergonha. As pessoas dizem-nos que estamos muito bem”, afirmaram os adolescentes. Sónia Peixoto é catequista e acompanhou estes jovens. “Eles assumem muito bem as personagens que estão a interpretar. Durante a via-sacra há algumas pessoas que se emocionam e que choram e eles têm muita sensibilidade para lidar com essas situações. Muitos destes jovens encenam esta via-sacra há vários anos e querem sempre participar”, disse a responsável.

 

A conclusão deste exercício espiritual foi uma ocasião para falar aos peregrinos da vida de São José Allamano – fundador dos Missionários e Missionárias da Consolata – ao mesmo tempo em que eram exibidos painéis e faixas sobre a obra deste santo que faleceu há 100 anos e que enviou para o Quénia os primeiros missionários que formou.

 

Numa peregrinação que decorreu com o lema “Allamano, peregrino de consolação”, a obra deste santo esteve também em destaque na Eucaristia que decorreu na Basílica da Santíssima Trindade, sob a presidência do padre James Lengarin, o primeiro missionário africano a ser superior geral dos Missionários da Consolata. Na homilia, o responsável destacou que os religiosos desta congregação caminham hoje “pela África, pelas Américas, pela Ásia e pela Europa levando consolação, justiça, esperança e humanidade”, mas frisou que não é necessário viajar para se ser missionário: “A missão acontece quando se escolhe o bem, em vez da indiferença. Quando se escuta, em vez de julgar. Quando se constrói, em vez de destruir”.

 

Na Eucaristia, jovens ligados à congregação entoaram os cânticos e executaram uma dança tradicional africana, que levou até ao altar as letras do apelido do fundador dos Missionários e Missionárias da Consolata, recordando, com cada um dos carateres, a obra de Allamano. As preces da oração dos fiéis foram proferidas por jovens e por uma pessoa sem abrigo, em representação de todos aqueles que os Missionários da Consolata apoiam nas ruas. Dezenas crianças que durante o dia participaram num ATL encheram de cor o momento de ação de graças. A peregrinação chegou ao fim na Capelinha das Aparições, com a saudação e consagração a Nossa Senhora de Fátima.

 

Jovens peregrinos sensibilizados para as feridas do mundo

Este encontro foi precedido de uma vigília para jovens, que decorreu na noite de 20 de fevereiro. Nesta ocasião, os mais novos participaram no concerto da banda “Discípulos de Fátima”, viveram um momento de oração na Capelinha das Aparições e escutaram o testemunho de Cláudia Duarte, uma Leiga Missionária da Consolata que em agosto de 2024 partiu com um grupo de voluntários para a Empada, na Guiné-Bissau. Esse grupo, ligado aos Missionários da Consolata, envolveu-se na reabilitação de um jardim-de-infância. A leiga falou também aos jovens sobre a iniciativa ‘Estudar para vencer’, uma campanha dos Missionários da Consolata que visa angariar fundos para construção de uma casa de acolhimento para adolescentes desfavorecidas na Guiné-Bissau.

Beatriz Dias e Beatriz Rodrigues distribuíram os guiões e os lenços da peregrinação

“Fiquei impressionado quando me apercebi da pouca escolarização daquelas meninas”, disse Gonçalo Santos, de 24 anos, que interpretou Jesus numa das estações da via-sacra. Beatriz Dias e Beatriz Rodrigues, ambas de Figueiró dos Vinhos e envolvidas na venda de lenços e guiões aos peregrinos, demonstraram-se sensíveis aos dados apresentados pela leiga. “A voluntária falou-nos sobre as desigualdades entre homens e mulheres na Guiné-Bissau e sobre o casamento precoce. Ouvir aquele testemunho faz-nos sentir vontade de ajudar também.”

 

Carla, Sara, Clara e Carolina participaram na vigília que antecedeu a peregrinação

Carla Ratinho, Sara Marques, Clara Baptista e Carolina Vieira estão ligadas ao grupo de jovens da congregação em Fátima e demonstraram como o testemunho da leiga lhes despertou o desejo de irem ao encontro dos mais vulneráveis. “Ela falou-nos sobre a reconstrução de uma cantina e sobre a melhoria de uma escola que ela e outros voluntários fizeram. Também nos falou sobre a campanha que tem o objetivo de construir uma casa de acolhimento para meninas que sofrem com a falta de oportunidades. Falou-nos sobre a mutilação genital feminina, que por vezes tantas mortes causa. Isso impressionou-nos muito. Um dia, também nós gostávamos de partir em missão.”

 

Texto: Juliana Batista

Deixe a sua opinião

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.