
Grupos organizados de costura revelam-se “espaços de convívio, partilha, amizade e pertença”. Existem mais de 60 em Portugal
A costura solidária da associação “Dress a Girl Portugal” está a levar dignidade, alegria e cuidado a crianças de vários países desfavorecidos, através do trabalho de milhares de voluntárias que transformam tecido em esperança
Um grupo de voluntários ligados aos Missionários da Consolata levou, este verão, para o Quénia cerca de 500 vestidos, calções e peças de roupa interior confecionados pela “Dress a Girl Portugal”, uma associação que cria vestuário para crianças e adolescentes de países carenciados. Para muitos dos menores beneficiados, aquela “é a primeira vez que recebem uma peça de roupa nova”, destaca Joana Nobre, presidente da associação, em resposta às perguntas enviadas por email pela FÁTIMA MISSIONÁRIA.
Joana recorda um momento que nunca esqueceu: em 2017, em Cabo Verde, uma menina recebeu um vestido e perguntou-lhe apenas: “Tia, é novo?”. A simplicidade da pergunta fez-lhe perceber que, para muitas crianças, ter uma peça nova não é habitual. “Naquele momento compreendi que não estávamos apenas a entregar roupa. Estávamos a dizer àquela criança que ela era importante, que alguém tinha pensado nela e dedicado tempo a criar algo só para ela.”
A “Dress a Girl” promove também formação em costura nas próprias comunidades onde vivem as crianças que apoia. “A formação começa sempre pela escuta das pessoas e pela compreensão das necessidades e dos recursos existentes”, explica Joana. O objetivo é ensinar “modelos simples, resistentes e fáceis de reproduzir, bem como técnicas de corte, confeção e acabamento”, a pessoas que “já tenham alguns conhecimentos de costura ou vontade de aprender”.
São Tomé e Príncipe é um dos países onde estas formações já chegaram. “Na Ilha do Príncipe, por exemplo, conciliámos as entregas de roupa nas escolas com momentos de formação dirigidos a alfaiates de Santo António.” Desta forma, trabalha-se para que o conhecimento “permaneça na comunidade e possa continuar a ser transmitido”. Esta capacitação contribui para as pessoas “produzam e reparem roupa, desenvolvam novas competências e, em alguns casos, criem oportunidades de rendimento”, realça.
Em Portugal, existem mais de 60 grupos organizados de costura. As voluntárias – todas mulheres – são mais de 1.500. Já foram entregues mais de 143 mil vestidos, mais de 70.500 calções e mais de 212.680 cuecas em 41 países. Os encontros de costura intergeracionais ajudam a superar o isolamento social da população sénior. “Os encontros de costura são mais do que produção. São espaços de convívio, partilha, amizade e pertença. Muitas voluntárias chegam por causa da costura, mas ficam pelas relações que constroem.” A iniciativa mostra às mulheres que os seus conhecimentos “continuam a ser úteis e valorizados”.
A associação funciona apenas com voluntárias e doações. Por isso, os “recursos são imprevisíveis” e nunca se sabe que tecidos, materiais, apoios financeiros ou possibilidades de transporte estarão disponíveis. Joana espera que o vestuário levado para o Quénia “tenha um impacto prático, proporcionando conforto, proteção e melhores condições de higiene, sobretudo através da entrega de roupa interior nova”. A responsável está consciente de que a roupa “não resolve os problemas estruturais da pobreza, mas acredita que pode devolver autoestima, dignidade e alegria”.

Crianças quenianas com vestidos da associação “Dress a Girl Portugal”, que este verão foram distribuídos pelo grupo “Twende”, do Norte do país
A “Dress a Girl Portugal” é uma associação independente e não confessional, mas colabora com instituições religiosas como os Missionários da Consolata e outras organizações civis ou entidades públicas, desde que exista um “objetivo humanitário, transparência e trabalho responsável” no terreno. “Instituições como os Missionários da Consolata conhecem profundamente as comunidades, mantêm relações de proximidade com as famílias e conseguem assegurar que as peças chegam efetivamente às crianças que mais precisam”, considera.
Para Joana, cada peça mostra que “alguém, mesmo estando longe, pensou naquela criança e acredita que ela merece o melhor”. O impacto da associação na vida dos menores é grande. “Cada vestido e cada par de calções transportam muitas horas de trabalho, dedicação e carinho. Enquanto existirem crianças a precisar e voluntárias com vontade de ajudar, teremos razões para continuar.”
Texto: Juliana Batista Fotos: Dress a Girl e Lara Castro
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