
O padre Bob Mulegua nasceu no Uganda e está ao serviço na Missão Catrimani, no Brasil
Nasci no Uganda há quase 37 anos e estou ao serviço na Missão Catrimani, localizada no coração da floresta amazónica, no Brasil. Chamo-me Bob Mulega e sou padre Missionário da Consolata desde os meus 31 anos. Quando, em 2019, cheguei à Missão Catrimani, e entrei em contacto com o povo indígena yanomami, acreditava que a missão consistia sobretudo em aprender uma nova língua, compreender a cultura do povo e anunciar o Evangelho através da presença e da convivência. Sabia que encontraria desafios, mas imaginava que eles estariam do lado de fora: a floresta, as distâncias, o isolamento e as diferenças culturais.
Com o passar dos anos, descobri que a missão mais exigente não estava diante de mim, nem fora de mim, mas dentro de mim. A missão transforma o missionário antes mesmo de transformar qualquer realidade. Essa é uma verdade sobre a qual pouco se escreve. Falamos muito dos povos, dos projetos, das dificuldades, dos frutos e dos desafios pastorais. Contudo, quase não falamos da humanidade daquele que permanece anos em contextos extremos. Existe uma missão invisível, silenciosa, que acontece no coração de quem foi enviado.
Ao longo destes sete anos, aprendi que o missionário continua a ser plenamente humano. Continua a sentir medo, saudade, cansaço, alegria e esperança. Continua a precisar de silêncio, de oração, de descanso e de pessoas que o escutem. Reconhecer isso não diminui a vocação; torna-a mais verdadeira. A graça de Deus não elimina a natureza humana, mas fortalece-a.
São José Allamano, fundador dos Missionários e Missionárias da Consolata, insistia que o missionário deveria procurar, antes de tudo, a santidade. Para ele, não bastava fazer muito; era necessário estar profundamente unido a Deus. A missão nasce da vida interior. Essa espiritualidade ensinou gerações de missionários que a fecundidade apostólica não depende apenas da eficiência, mas da qualidade da presença. Permanecer junto do povo exige, igualmente, permanecer unido a Cristo.
A convivência com o povo yanomami também me evangelizou. Aprendi a respeitar o ritmo da floresta, a ouvir antes de falar e a compreender que a presença vale mais do que a pressa. A floresta ensina que tudo tem o seu tempo. Nenhuma árvore produz frutos continuamente. Também o missionário precisa de tempos de renovação para continuar a oferecer vida.
O Concílio Vaticano II, no decreto ‘Ad Gentes’, recorda que a Igreja é missionária por sua própria natureza. Essa natureza missionária, porém, nunca pode esquecer a dignidade da pessoa enviada. O Papa Francisco, na exortação apostólica ‘Evangelii Gaudium’, convida a Igreja a ser uma comunidade de discípulos missionários que caminha com alegria. Essa alegria não nasce do ativismo, mas do encontro permanente com Cristo. Em ‘Fratelli Tutti’, o Papa Francisco recorda que toda a missão autêntica nasce da proximidade, do cuidado e da capacidade de reconhecer a humanidade do outro. Talvez devamos acrescentar: também da capacidade de reconhecer a humanidade do próprio missionário.
Ao longo do caminho, percebi que existe outra floresta, invisível aos olhos: a floresta das expetativas. Espera-se que o missionário esteja sempre disponível, sempre forte e sempre pronto. Poucos perguntam como ele está. No entanto, cuidar da própria saúde física, emocional e espiritual não significa fugir da missão. Significa garantir que ela continue. Um coração esgotado dificilmente conseguirá permanecer sinal da esperança de Deus.
Escrevo estas linhas não para falar de mim, mas para dar voz a tantos missionários que vivem realidades semelhantes. A missão precisa de homens e mulheres apaixonados pelo Evangelho, mas também conscientes dos seus limites. Precisamos de formar missionários capazes de amar profundamente os povos aos quais são enviados, sem perder a própria humanidade.

Missionário da Consolata acompanha o povo indígena yanomami há sete anos, no coração da floresta amazónica
Depois de sete anos em Catrimani, continuo convencido de que Deus me chamou para caminhar com o povo yanomami. Continuo a acreditar que vale a pena gastar a vida pela missão. Mas hoje sei que permanecer missionário exige também permanecer humano. Talvez essa seja a missão invisível: deixar que Deus cuide do coração daquele que Ele mesmo enviou. Quando isso acontece, o missionário descobre que a sua maior obra não é aquilo que realiza, mas a pessoa em que, pela graça de Deus, se vai tornando ao longo do caminho.
Texto: Bob Mulega
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