
Salas da escola infantil e primária de Santa Eugenia em Mujwa, no Quénia, foram renovadas pelo grupo “Twende”
Entre tijolos, pincéis, computadores, cabazes e brincadeiras, voluntários portugueses viveram um verão que uniu construção, educação e encontro. No Quénia e em Moçambique, deixaram obras visíveis – e laços invisíveis – que continuam a crescer após a partida
No último verão, quatro grupos de voluntários do norte de Portugal ligados aos Missionários da Consolata partiram para o Quénia e Moçambique com missões distintas, mas unidas pelo mesmo propósito: criar espaços que devolvem dignidade, aprendizagem e encontro às comunidades. Entre escolas erguidas, salas renovadas, parques comunitários iniciados e laços criados com crianças e famílias, estas missões – que decorreram durante cerca de 30 dias – deixaram marcas profundas em Chumviyere, Mujwa e Massangulo.
Erguer e equipar
Os grupos “Tijolo a Tijolo” e “Es-tu-dar” estiveram na aldeia de Chumviyere, na região de Isiolo, norte do Quénia, onde ajudaram a erguer uma escola pré-primária. Quando chegaram ao terreno, grande parte da estrutura da nova escola já estava levantada, graças aos fundos que já tinham enviado. A antiga escola, construída em chapas metálicas, tornava o calor e o ruído da chuva insuportáveis. Os voluntários rebocaram e pintaram paredes, instalaram iluminação solar, montaram mobiliário e prepararam três salas de aula e um recreio com bebedouros e baloiços. O escritório recebeu armários, impressora, papel e computador, e foi instalada internet para apoiar professores e alunos, conforme descreveram os voluntários no instagram, em voluntariadoquenia2026 e missao_estudar_quenia.
A equipa montou canalização de água, iniciou casas de banho, colocou um reservatório para recolha de água da chuva e criou um sistema de rega. Holofotes alimentados por energia solar passaram a iluminar o recinto, a área exterior foi vedada e a igreja local recebeu nova pintura e reparações. A meio da missão, decidiram avançar com uma cozinha comunitária e um refeitório coberto, para que as crianças deixassem de almoçar sentadas no chão. Distribuíram cabazes alimentares com bens como farinha e sabão, e entregaram materiais médicos, incluindo uma incubadora.

Jovens e crianças de Massangulo, em Moçambique, participaram num conjunto de atividades desenvolvidas pelo grupo “Ponto de Encontro”
A aldeia de Chumviyere é maioritariamente habitada por famílias da tribo Turkana, uma comunidade pastorícia, conhecida pelas suas danças, cores, colares e tradições ancestrais. As crianças Turkana prepararam apresentações de danças tradicionais, com vestimentas e acessórios típicos da sua cultura. “Encheram o espaço de música, movimento e alegria. Ficámos encantados com a dedicação e o entusiasmo com que quiseram partilhar connosco a sua cultura”, escreveram os voluntários, que visitaram também as “manyattas”, casas tradicionais das tribos locais.
O grupo entregou material médico, chinelos, bolas, raquetes, carrinhos de rolamentos, talheres, garrafas reutilizáveis, armários, uma coluna de som, uma guitarra, roupa, diversos jogos e colchonetes impermeáveis para as crianças fazerem a sesta. Dinamizaram atividades lúdicas e interculturais e criaram laços afetivos com as crianças. Um dos dias mais especiais foi a visita de estudo ao safari de Samburu – para muitas crianças, aquela foi a primeira saída da aldeia.
Antes do regresso, deixaram também alimentação para cerca de dois meses, incluindo arroz, farinha, feijão, lentilhas, óleo, açúcar, batata, cebola e repolho. A chegada a Portugal trouxe um sentimento agridoce: a alegria de voltar às famílias e a saudade de uma comunidade que os acolheu com generosidade. “Levamos connosco memórias que ficarão para sempre e um enorme sentimento de missão cumprida.”

Aldeia de Chumviyere é maioritariamente habitada por famílias da tribo Turkana, conhecida pelos seus colares e tradições ancestrais
Renovar e distribuir
O grupo “Twende” – palavra suaíli que significa “Vamos lá” – partiu para Mujwa, na região de Meru, no Quénia, com o objetivo renovar as salas da escola infantil e primária de Santa Eugenia, que apresentavam graves problemas estruturais. “Lixámos, pintámos e tapámos buracos, transformando pouco a pouco este espaço”, relataram os voluntários no instagram, em twende.2026. A colocação de um novo chão completou a renovação das salas.
Os voluntários visitaram a Escola Secundária das Raparigas, onde viveram momentos de convívio e escuta: “Entre jogos, conversas e gargalhadas, conhecemos os seus sonhos e a esperança com que olham para o futuro.” Durante a visita, o padre Fredrick Ndirangu, Missionário da Consolata e superior da missão de Mujwa, revelou que vão ser implementadas aulas de costura e informática. Cinco computadores levados de Portugal vão já apoiar esta mudança.
O grupo distribuiu roupa e alimentos e visitou famílias dispersas por caminhos difíceis. “Encontrámos rostos cheios de esperança e olhares de quem continua a acreditar apesar das dificuldades.” A missão incluiu um momento espiritual marcante: a participação nas profissões religiosas das Irmãs de Nossa Senhora da Nazaré, em Meru. “Vivemos momentos de grande emoção e testemunho. Impressiona-nos ver tantas jovens a responder ao chamamento de Deus com tanta alegria e convicção.”
Houve tempo para mergulhar na cultura local, incluindo conhecer árvores e frutos locais, atravessar a linha do equador, observar animais no seu habitat natural e participar num funeral – uma experiência profundamente significativa. Aprenderam a fazer ‘chapati’, um pão achatado típico da culinária da África Oriental – “Entre farinha, mãos na massa e muitas gargalhadas, descobrimos mais um pouco da riqueza desta terra. E podemos garantir: estavam deliciosos!” Fizeram um safari, contemplaram o Kilimanjaro e visitaram uma feira local, onde descobriram “tradições, cores e histórias”.
Entre os voluntários estava Mário Jorge Ferreira, o pároco de Baguim do Monte. “Não me digam que a Igreja está morta, pois não está; vi uma Igreja alegre, viva, em saída. Vi uma Igreja que abraça cada um, sempre com tanto para nos dar. Vi missionários a darem-se com uma alegria contagiante. Vi famílias a abraçar-nos, mesmo tendo tão pouco para comer ou mesmo cheios de problemas familiares. Mas também me vi de coração apertado, de lágrima no olho, livre em ser Igreja, aberto ao abraço e ao sorriso de cada um”, escreveu o padre diocesano, que partiu pela primeira vez em missão. O trabalho do grupo “Twende” continuará a ser acompanhado pelo padre Fredrick, garantindo que o impacto da missão se prolonga no tempo e que a comunidade de Mujwa continua a beneficiar das melhorias iniciadas.
As bases do parque
O grupo “Ponto de Encontro” partiu para Massangulo, em Moçambique, para iniciar o Parque Comunitário da Missão. Ao chegarem ao terreno, perceberam que o projeto era mais do que transformar um espaço. O padre João Nascimento, Missionário da Consolata português ao serviço em Massangulo, explicou-lhes que muitas pessoas procuram trabalho para garantir algum rendimento. O parque tornou‑se, assim, uma forma de envolver e empregar a comunidade. A primeira tarefa foi remover uma casa que ocupava o terreno destinado ao parque – um trabalho exigente, mas marcado por gargalhadas.

Jovens e crianças de Massangulo, em Moçambique, participaram num conjunto de atividades desenvolvidas pelo grupo “Ponto de Encontro”
Os voluntários pernoitaram na missão, onde descobriram “nascentes de água e paisagens de uma beleza difícil de descrever”, conforme partilharam no instagram, em missao_pontodeencontro. O grupo visitou a Escola Secundária de Massangulo, onde o diretor apresentou o espaço e a realidade dos alunos. Numa segunda visita, conheceram a turma do 11.º ano, num encontro marcado pela curiosidade e pela partilha. A missão teve as suas peripécias, com a viagem até Masserema a sofrer um imprevisto: a carrinha do padre João não conseguiu avançar num troço, obrigando o grupo a caminhar cerca de uma hora até à comunidade.
Dinamizaram encontros para crianças e jovens com jogos, leitura, escrita e momentos de convívio. Houve tempo para contemplar as estrelas ao som da guitarra do sacerdote, e os mais pequenos estiveram no centro da missão. Com eles, os voluntários saltaram à corda, sopraram bolas de sabão, jogaram futebol e desenharam. A separação foi a parte mais difícil: “As crianças nunca nos querem deixar ir embora e fazem questão de nos acompanhar até ao último momento, entre abraços e sorrisos.” A despedida trouxe um gesto comovente: “Ofereceram-nos uma capulana. Foi um gesto carregado de significado, que nos deixou de coração cheio.”
O parque não ficou concluído, mas o essencial está preparado. “Todo o terreno foi limpo e preparado para que a construção possa começar.” O padre João continuará a envolver trabalhadores da comunidade, garantindo que o projeto gera emprego e impacto local. Os donativos não utilizados foram entregues ao missionário e serão aplicados na melhoria dos espaços de apoio ao estudo e na reabilitação de capelas – locais que, para além da celebração da Eucaristia, servem para dar explicações às crianças. A iniciativa deverá beneficiar menores que vivem em comunidades onde não existe escola.
Texto: Juliana Batista
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