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Stefano Camerlengo: “Todos estes irmãos têm alguma coisa para nos ensinar”

Leia a homilia da missa a que o superior geral dos Missionários da Consolata (IMC), padre Stefano Camerlengo, presidiu neste sábado, 16 de maio, na Casa Geral do IMC, em Roma, em sufrágio dos missionários e missionárias da Consolata falecidos vítimas da COVID-19

O padre Stefano Camerlengo presidiu, na manhã deste sábado, 16 de maio, a uma missa em sufrágio dos missionários e missionárias das Consolata falecidos por causa do coronavírus. São 13, no total: 11 padres e duas irmãs: P. Lorenzo Cometto; P. Giovanni Medri; P. Antonio Roberti; P. Giovanni Viscardi; P. Gabriele Goletto; P. Virgilio Panero; P. Fedele Crippa; P. Mario Baseggio; P. Francesco Pavese; P. Silvestro Bettinsoli; Dom Silas Njiru; Irmã Pier Giacomina Bagnati; Irmã Giulia Vanzetto. Foram lembrados também os familiares, amigos e benfeitores falecidos durante essa pandemia.
Partindo de um convite prévio por parte do IMC, na pessoa do superior geral, em todas as comunidades da Consolata nos cinco Continentes onde este Instituto está presente: Europa, África, América e Ásia, foram celebradas missas em memória e sufrágio destes defuntos, como família missionária em comunhão. Dai-lhes Senhor o descanso eterno e brilhe para eles a luz da vida.

HOMILIA DO PADRE STEFANO CAMERLENGO
São tantas as reflexões que a palavra de Deus e também a situação que estamos a viver mostram. São tantas as coisas que levamos dentro e que talvez não contaremos nunca a ninguém, e morrerão connosco. São tantas as coisas que procuramos partilhar uns com os outros no nosso quotidiano, que procuramos viver, e são também tantas as coisas que enriquecem a nossa vida…

Hoje, recordando os nossos coirmãos defuntos e também os familiares, amigos e benfeitores, assim como as nossas irmãs missionárias da Consolata, queremos verdadeiramente fazer esta celebração de família. E são três as reflexões que gostaria de partilhar, porque fazem parte da nossa vida destes dias.

Antes de mais, a experiência que estamos a fazer da morte, através do coronavírus. Todos sabemos que tal como existe um princípio, um início, existe também um final. Todos sabemos que devemos morrer, não somos eternos, ainda que certamente, e algumas vezes, talvez gostaríamos que fossemos. No entanto, nestes dias, neste tempo de coronavírus, em que pelo menos a mim que acompanhei pessoalmente a vida destes irmãos cujas fotos temos ali [por detrás do altar], fez-nos experimentar um encontro mais forte, mais marcante com a morte. Especialmente numa sociedade como a nossa, que faz de tudo para a esconder, como se esta não existisse. Mas o coronavírus colocou diante de nós esta triste realidade, e sabemos que toca a cada um de nós, que somos finitos, que temos limites, que somos frágeis.

Diante desta realidade partilho três reações dos nossos coirmãos, que são também as nossas e que nos ensinam alguma coisa.
– A primeira reação é a daquele que está chateado e pergunta porque que é que este mal “me toca a mim”, e não queria aceitar sequer ser curado, e rejeitava mesmo deixar-se acompanhar. Creio que seja a situação de tantos, também nossa, talvez. O medo de morrer, o medo de partir, o medo de deixar alguma coisa que não sabemos exatamente o que é. Certamente que a fé nos dá mais força, nos deixa mais preparados, ou deveríamos estar mais preparados, mas, no entanto, o medo permanece. É uma realidade com a qual devemos conviver.
– A segunda reação é a de um outro coirmão que diz que, diante da morte que se aproxima, percebe que são poucas as coisas que valem realmente a pena. E diz: “Eu descobri a confiança em Deus e a importância das relações que se foram construindo ao longo da minha vida, porque agora aqui entubado por todos os lados, passam diante de mim todas as pessoas a quem eu quis bem, a quem eu quis fazer o bem e que eu senti que me queriam bem, que gostavam de mim. Entendes o que construíste na tua vida, as relações da tua vida e descobres que diante da morte encontras apenas estas duas coisas: a confiança em Deus e as relações que construíste”. Acredito que seja este um grande ensinamento para cada um de nós
– Existe ainda um terceiro ensinamento que um outro irmão partilhou comigo e que vos comunico, também. Eu perguntei “Como estás?”, e ele respondeu: “Dou-me conta que estou a caminho do fim”. “E, como te sentes?”, acrescentei. É que diante destas coisas uma pessoa nem sabe que palavras usar, que palavras dizer. Ele responde: “Agora que estou no final dos meus dias, a minha preocupação é o trabalho que estou a dar aos outros”. Ele não se sentia de desesperado diante da morte, que poderia ser iminente, mas sim preocupado com o trabalho que estava a dar aos outros.
Cada um destes irmãos tem alguma coisa para nos ensinar, mas não só eles, também todos estes pilares que nos estão a deixar pouco a pouco.
Há uma história judaica que nos diz que o mundo se apoia sobre 36 colunas. São elas que mantém o mundo em pé, que sustém o mundo. Estas colunas são os sábios, são as pessoas que nos deixaram, que nos ensinaram a história de uma nação, de um povo, de uma comunidade, de um Instituto. São aqueles que mantém o mundo em pé. Certamente que estes nossos irmãos que agora vivem com o Senhor, fazem parte destas 36 colunas. Esperamos nós também um dia de podermos ser uma pequena coluna que possa ajudar a comunidade e o Instituto, a família, a sociedade e o mundo a seguir em frente.
Esta realidade da morte ensina-nos muitas coisas. Nas leituras da Liturgia do dia, a Primeira Leitura faz-nos ver o movimento missionário de Paulo e Barnabé, que vão visitar as comunidades e procuram criar comunidade. Também estes missionários dedicaram a vida, procurando constituir, formar comunidades, cada um com o seu caráter, cada um com as suas imperfeições.
Ontem cumprimentava uma família dando os pêsames do Instituto por um padre que morreu. Eu não sabia que palavras usar, e disse: “Ele era um pouco fechado. E do outro lado um sobrinho dizia: “Padre, diz um pouco fechado? Ele quase não falava. Mas fez tanto bem”. Certamente que o Senhor vai sempre mais além das nossas limitações, o seu amor é sempre maior.
Os filósofos fizeram da morte objeto de estudo. O Cardeal Martini, nas suas meditações muito profundas, de fé, dizia que a morte está aí porque naquele momento podemos verdadeiramente pensar o quanto acreditamos em Deus, o quanto é verdadeira a nossa fé. E um pensador italiano, o padre Turoldo, que escreveu o livro “A morte do teólogo”, naquele romance ele imagina que numa aldeia do mundo chega um dia uma grande notícia: a morte desapareceu. Não haverá mais morte. De repente as pessoas começaram a não morrer. Porém, naquela aldeia, quando se aprende a não morrer mais eis que chega um grande flagelo. E não são coisas vindas de fora: é a tristeza, porque não se constroem mais relações se alguém fica doente. Se alguém fica enfermo deixa de receber visitas. Afinal, um dia ficará bem, ao passar a doença, que não é nada, e assim as pessoas vão ficando cada vez mais tristes do que quando naquela aldeia se morria. E é então que começam a rezar a Deus, em grupos, pelas ruas, para que a morte volte.

A morte não é o fim, a morte é o sentido da vida, porque nos faz recordar lá onde todos estamos destinados, lá onde está o nosso destino, que é viver no Senhor. É verdade que nos chateia, nos dá raiva, nos faz gritar. É verdade que nos custa aceitá-la. É verdade que nos perguntamos “Senhor, porquê isto? Porque a mim? Porquê tantos, assim? Porquê a nós?”. É verdade. Todas estas perguntas são legítimas, mas no final o que realmente conta é saber que estamos nas mãos do Senhor. O que conta é saber que o Senhor está a construir uma história. O que conta é saber que não é o Senhor que mandou o vírus. O nosso Deus é um Deus misericordioso, um Deus que é Pai, um Deus que nos quer bem.

Então, vamos pedir nesta Eucaristia ao Senhor, que nos ajude a mudar. Peçamos que esta situação nos ajude a mudar. Eu acredito profundamente: não podemos continuar a ser os mesmos de antes; se amanhã recomeçarmos como antes, quer dizer que não aprendemos nada; se a partir de amanhã recomeçamos como se apenas tivéssemos fechado um parêntese, então é porque não entendemos nada. O Senhor fala-nos neste tempo, nestes dias. Ele está a falar-nos, ainda. Cabe a cada um de nós acolher a sua mensagem, a sua mensagem mais profunda, que nos convida a sermos pessoas novas, seja a nível pessoal, seja a nível comunitário, social, mundial. Não podemos fazer de conta que não aprendemos nada que não entendemos nada, que tudo ficará como antes, somos convidados sonhar, a avançar para águas mais profundas, a construirmos um futuro melhor.

Há uma frase de um teólogo que me tocou especialmente nestes dias e que vou ler: “Devemos perguntar-nos o quanto fosse normal a normalidade de antes. Talvez seja um bem que não voltemos como éramos, porque naquela normalidade existiam tantas coisas anormais. Agora, o desafio é o de construir sobre bases que vão ao encontro das verdadeiras prioridades. O ser humano é um pedaço de uma criação muito mais ampla, mais rica, e que funciona como um todo. Como crentes deveríamos sabê-lo, já. Mas algumas situações como esta tornam-na ainda mais evidente.”

Nós somos missionários. Pensar nos nossos irmãos que nos deixaram pelo coronavírus é nosso dever, é espírito de família, rezar por todos em espírito de família, é nosso dever neste momento. Mas não podemos esquecer todos os outros que sofrem. Não podemos esquecer todos os outros que nas nossas comunidades sofrem por fome, sofrem por outras doenças que bem conhecemos. Pensemos na malária, pensemos noutros flagelos que desde há tantos anos afetam países e populações. E quase não são notícia porque talvez afetem pessoas pouco importantes. Pensemos nas pessoas que estão a morrer tentando a emigração nestes dias, nestes tempos. Pensemos em tantos sofrimentos que atingem ainda a humanidade. Tudo Isso queremos colocar nesta nossa Eucaristia, juntamente com os pobres, com as crianças, juntamente com os idosos e doentes. Que seja verdadeiramente uma oração nossa, universal e missionária.

Todas as orações daqueles que rezam connosco as colocaremos sobre o altar, como oferta ao Senhor, para que a nossa fé cresça, a nossa caridade se faça sempre mais profética e que a nossa esperança não acabe nunca, porque temos a certeza que estamos nas mãos do Senhor.

– Padre Stefano Camerlengo | Superior Geral dos Missionários da Consolata | Homilia da missa celebrada em Roma no dia 16 de maio 2020