Os Missionários da Consolata, a Igreja Católica em Moçambique e a sociedade civil acordaram este sábado, 6 de junho, em profunda consternação com a notícia inesperada da morte de D. Osório Citora Afonso, Bispo da Diocese de Quelimane e administrador apostólico da Arquidiocese da Beira. D. Osório foi encontrado sem vida na sua residência oficial, na cidade de Quelimane. Tinha 54 anos de idade.
Com uma vida profundamente dedicada à missão e aos estudos teológicos, D. Osório contava com 28 anos de vida religiosa, 23 anos de sacerdócio e apenas dois anos de episcopado.
SERNIC fala em morte violenta
Após uma primeira notícia confusa que surgiu nas primeiras horas deste sábado, a informação da sua morte foi mais tarde confirmada pelo Colégio de Consultores da Diocese de Quelimane, que expressou o seu “profundo pesar” pelo trágico e inesperado desaparecimento do prelado.
No decorrer da manhã deste sábado foram sendo divulgadas pelas autoridades competentes as causas da morte de D. Osório. O Serviço Nacional de Investigação Criminal (SERNIC) em Quelimane confirmou que D. Osório morreu em consequência de ter sido baleado no peito.
Segundo Maximino Amílcar, Porta-voz do SERNIC na Zambézia, alguns indivíduos terão invadido a residência do prelado durante a madrugada, tendo efetuado disparos que atingiram a vítima na região do peito. Foi considerado homicídio agravado.
Até ao momento, as motivações do crime permanecem desconhecidas. O SERNIC garante que está a fazer diligências com vista ao esclarecimento do caso e à identificação dos autores deste cruel assassinato.
Reações de pesar
A notícia da morte de Dom Osório gerou uma onda imediata de condolências que transcendeu as fronteiras religiosas.
O Presidente da Conferência Episcopal de Moçambique (CEM), Mons. Inácio Saúre, IMC, foi quem deu oficialmente a notícia do falecimento aos demais membros do IMC no mundo – família religiosa missionária à qual D. Osório pertencia. Fê-lo através de uma nota de pesar enviada ao superior dos Missionários da Consolata em Moçambique, padre Cassiano Kalima, também ele muito abalado com a noticia, e num momento em que ainda quase nada se sabia sobre as causas da morte.
“Mons. Osório foi encontrado sem vida, de cabeça para baixo no corredor do Palácio Episcopal em Quelimane”, disse. “Estamos todos sem palavras”. E acrescentou: “Rezamos pelo seu descanso eterno, pela sua família biológica, por nós como IMC e pela Igreja Católica em Moçambique. Pela intercessão de Nossa Senhora da Consolata e São José Allamano, descanse em paz”. “Mais pormenores, em tempo oportuno”, concluía a nota de pesar.
O Instituto missionário expressou o seu mais profundo pesar: “Imploremos a misericórdia de Deus por ele, e a luz da Ressurreição.”
Já o Presidente da República de Moçambique, Daniel Chapo, reagiu publicamente através de uma mensagem oficial, sublinhando o impacto desta perda para o país: “O passamento do Bispo Osório constitui uma perda irreparável para a sociedade moçambicana, em geral, e para a comunidade cristã, in particular”
O chefe de Estado destacou ainda o percurso do bispo, lembrando o seu “legado de humildade, dedicação pastoral e promoção dos valores da paz e da reconciliação”.
Uma Vida Dedicada à Missão e à Formação
Natural de Ribaue, na província de Nampula, Moçambique, onde nasceu a 6 de maio de 1972, D. Osório Citora Afonso teve um percurso académico e eclesiástico de grande relevo.
Frequentou o Seminário Preparatório Cristo-Rei em Matola (Maputo), estudou filosofia no Seminário Maior Santo Agostinho em Matola e teologia no Instituto Saint-Eugène de Mazenod em Kinshasa. Fez a sua profissão solene em 2001 no Instituto Missões Consolata em Kinshasa (República Democrática do Congo), onde foi também ordenado sacerdote, no dia 3 de novembro de 2002.
Entre cargos, estudos e outras responsabilidades ao longo da sua vida, destacamos: Vigário Paroquial e Tesoureiro de Saint Hilaire em Kinshasa (2002-2005); Conselheiro Regional para a República Democrática do Congo (2005-2006); Licenciado em Sagrada Escritura pelo Pontifício Instituto Bíblico em Roma (2006-2010); Estudos na Universidade Hebraica de Jerusalém (2008-2009) e na École Biblique et Archéologique Française em Jerusalém (2010-2011); Membro do Conselho da Casa Geral em Roma (2008-2010); Colaborador local da Nunciatura Apostólica em Kinshasa (2011-2013); Formador e Tesoureiro do Seminário Teológico de Kinshasa (2011-2013); Superior do Centro Missionário da Diocese de Vittorio Veneto (2014-2016); Superior da Casa Milaico em Treviso (2014-2016); Conselheiro Regional para a Itália, Treviso (2016-2017); Formador no Seminário Teológico Internacional de Bravetta, Roma (2016-2017); Funcionário do Dicastério para a Evangelização, Seção para a Primeira Evangelização e Novas Igrejas Particulares (2017-2023).
O Regresso a Moçambique como Sucessor dos Apóstolos
Após anos de serviço na Europa e noutros pontos de África, D. Osório regressou em definitivo a Moçambique para assumir o múnus episcopal.
Em 21 de setembro de 2023, foi nomeado bispo Auxiliar de Maputo, Moçambique, recebendo a ordenação episcopal no dia 28 de janeiro de 2024. Quase dois anos mais tarde, a 25 de julho de 2025, foi nomeado Bispo da Diocese de Quelimane.
No dia 10 de abril de 2026, D. Osório acumulou um novo múnus episcopal: o Papa Leão XIV nomeou-o administrador apostólico da Arquidiocese Metropolitana da Beira (Moçambique), após aceitar a renúncia do arcebispo D. Cláudio Dalla Zuanna, SCJ,
Atualmente, exercia também o cargo de Secretário-Geral da Conferência Episcopal de Moçambique.
Ligação a Portugal
D. Osório tinha uma ligação de grande afeto a Portugal. Muitas das vezes, a caminho de Moçambique para Roma e vice-versa, fazia escala em Portugal e percorria algumas das nossas comunidades, onde deixava sempre uma aura de grande simpatia e entusiasmo missionário, presidia a celebrações, dava retiros. Aproveitava para angariar alguns fundos para os seus projetos missionários. Ale disso, presidiu em 2025 à 35ª Peregrinação da Família Consolata a Fátima. Foi Também, e durante muitos anos, colaborador da nossa revista Fátima Missionária, onde mantinha a rubrica “Sementes do Reino”, com reflexões sobre textos bíblicos lidos na liturgia dominical.
Homenagens
O falecimento prematuro de D. Osório deixa um vazio imenso e representa uma profunda perda na Igreja moçambicana e na congregação dos Missionários da Consolata, onde era reconhecido pelo seu perfil de intelectual, teólogo, formador, pastor dedicado e compromisso inabalável com a missão de Cristo e do Seu Evangelho.
As cerimónias fúnebres arrancam já este sábado, com a celebração de uma missa de sufrágio na Paróquia de Nossa Senhora do Livramento – Sé Catedral de Quelimane. A diocese remeteu para mais tarde a partilha de novas informações sobre as exéquias fúnebres oficiais.
Dai-lhe, Senhor, o descanso eterno e que a luz perpétua o ilumine. Que ele descanse em paz.
P. Albino Brás imc
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