Homilia de D. Diamantino na Missa da 30ª PFMC a Fátima
15/02/2020
A 30ª Peregrinação da Família Missionária da Consolata a Fátima (PFMCF), que decorreu neste sábado, 15, atraiu milhares de peregrinos à Cova da Iria, e contou com a presença de D. Diamantino Antunes, Bispo de Tete, Moçambique. Leia a reflexão (homilia) que partilhou na missa de encerramento da peregrinação

Caríssimos irmãos e irmãs

1 – A ocasião que hoje nos é dada celebrar - a Peregrinação da Família Consolata ao Santuário de Nossa Senhora de Fátima no contexto do 30º aniversário da Beatificação do nosso Pai Fundador, Beato José Allamano - impele-nos a todos, missionários, missionárias, leigos missionários e amigos da Consolata, a renovar o nosso espírito missionário com fidelidade e criatividade, conhecendo a riqueza da vida de José Allamano e imitando o exemplo da sua santidade e do seu espírito missionário.
“Atreve-te a seguir Jesus” é o lema desta peregrinação. Um convite a sermos discípulos missionários corajosos e audazes porque ser cristão é estar em missão: baptizados e enviados a anunciar Cristo ao mundo.

2 - As leituras de hoje, próprias da memória litúrgica do Beato José Allamano, são um convite a sermos sempre e em todo o lugar missionários. São Paulo, como ouvimos na primeira leitura, sente a necessidade irresistível de levar aos outros a experiência que ele próprio havia feito do amor de Cristo, ao ponto de exclamar: “Ai de mim se não anunciar o evangelho” (1Cor 9,16). Diante da urgência da missão evangelizadora, ele aceitava enfrentar prisões, perseguições, fome, nudez e calúnias. Para ele, o importante era que Cristo fosse conhecido, amado e seguido. É-nos pedida a nós, cristãos de hoje, a coragem de Paulo, justamente porque hoje surgem à nossa volta, apesar do contexto de liberdade religiosa, ambientes hostis ao Evangelho em que Cristo está particularmente ausente. Pensemos, por exemplo, no mundo da política, da comunicação social, no da cultura e no da investigação científica, no ambiente das universidades… Esses, e muitos outros ambientes, precisam ser iluminados pela luz do Evangelho.
“Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho!” (1Cor 9,16). Paulo tinha convicção de que Cristo é o único salvador; o único capaz de nos revelar e de nos conduzir a Deus. Por isso, anunciá-lo era a razão de ser da sua vida. Não deve ser essa, também, a razão de ser da nossa vida, já que somos os atuais discípulos missionários?…
Ao falar na Sinagoga, como escutámos na proclamação do Evangelho, Jesus assumia as palavras do profeta Isaias Is 61, 1-2 as quais anunciavam a todas as nações a Sua missão de ungido do Senhor. Este trecho relata-nos o ministério de Jesus aqui na terra que se constitui também na nossa missão, pelo poder do Espírito Santo: anunciar a boa nova, proclamar a libertação dos cativos, recuperar a vista aos cegos, livrar os oprimidos e proclamar o perdão do Senhor! Todos nós que somos batizados em Cristo temos também esta vocação. Pela palavra que anunciamos, pela oração que fazemos ou pelo nosso testemunho, todas estas coisas podem suceder àqueles com quem nos cruzamos, ou a quem nos dirigimos. Nem sempre temos sucesso como gostaríamos, mas o Senhor envia-nos sempre a alguém e, embora nem o imaginemos, por nosso intermédio ela pode obter cura e libertação. O que é para mim evangelizar? A quem é que eu me sinto chamado a evangelizar? O que tenho eu feito para atrair os outros para uma vida melhor?
Temos que ter a coragem de seguir Jesus e anunciá-lo com a nossa vida.

3 – O Beato José Allamano, cuja memória litúrgica hoje celebramos, teve a coragem de seguir Jesus e de formar missionários/as que fossem testemunhas da sua consolação no mundo, particularmente entre os povos e as nações que não o conheciam. Por isso ele é santo e motivo de inspiração para os cristãos de hoje.
Convosco quero fazer memória da Beatificação do Fundador e renovar o nosso interesse pela sua pessoa e espírito missionário. A cerimónia da Beatificação teve lugar no Domingo, 7 de Outubro de 1990, na Praça de São Pedro. Eu estava lá entre a multidão. Estudava Teologia em Roma. Recordo-me, como se fosse hoje, da celebração e também a comoção.
Depois do Evangelho, a homilia do Papa João Paulo II, sublinhou com estas palavras o espírito missionário do Beato Allamano:
O Cónego Allamano sentiu como dirigidas diretamente a si as palavras de Cristo: “Ide pelo mundo inteiro e anunciai a Boa-Nova a toda a criatura” (Mc 16, 15). E a fim de contribuir para imprimir na comunidade cristã um tal impulso, embora permanecendo sempre activo como sacerdote diocesano, fundou em primeiro lugar o Instituto dos Missionários, e depois o das Missionárias da Consolata, para que a Igreja se tornasse cada vez mais “mãe fecunda de filhos”, “vinha” que dá frutos de salvação.
No momento em que é inscrito entre os Bem-Aventurados, José Allamano recorda-nos que para permanecermos fiéis à nossa vocação cristã, é preciso que saibamos compartilhar os dons recebidos de Deus, com os irmãos de todas as raças e de todas as culturas; é preciso, com coragem e coerência, que anunciemos Cristo a todas as pessoas que encontramos, de modo especial àqueles que ainda não o conhecem.

4 - Seja o evento da celebração dos 30 anos da Beatificação do Fundador, juntamente com o encerramento da celebração dos 75 anos da chegada dos primeiros Missionários da Consolata a Portugal/Fátima, uma excelente oportunidade para fortalecer a nossa união no serviço à missão, vivido em espírito de família, como nos indicou José Allamano, com o seu coração de Pai.
Certamente que sim. Penso que é uma feliz coincidência que tenha sido escolhido para bispo de Tete, em Moçambique, no ano em que os Missionários da Consolata celebravam 75 anos de presença em Portugal.
Como sabeis, a nossa presença em Portugal está intimamente ligada a Moçambique, onde os missionários da Consolata estão presentes desde Outubro de 1925. Os missionários da Consolata pioneiros em Moçambique foram do último grupo de evangelizadores enviados pelo Beato Allamano em missão. Já estava muito doente. No quarto onde algum tempo depois viria a morrer deu a sua bêncão a cada um dos missionários. Este primeiro grupo foi destinado à missão de Miruru, justamente, na actual diocese de Tete.
Desde então os missionários da Consolata de Moçambique sentiram sempre a necessidade e incentivaram a presença da Consolata em Portugal para favorecer a cooperação missionária e a formação de missionários da Consolata portugueses. Alguns anos depois isto foi possível. O Padre João De Marchi, fundador da Consolata em Portugal, chegou aqui em Fátima no dia 23 de Junho de 1943 e procurou por todos os meios, realizar o objectivo principal da sua vinda: a fundação do seminário para formar missionários para Moçambique e para o mundo. A sua acção deu frutos e a 5 de Abril de 1957 desembarcam em Moçambique os primeiros três missionários da Consolata portugueses para trabalhar nas missões.
São 75 anos de comunhão e colaboração em prol da Missão entre Moçambique e Portugal. Uma história vivida por várias gerações seguidas de Missionários da Consolata, num total de 225 religiosos de várias nacionalidades dos quais 46 são portugueses.

5 – Eu sou um desses 46 missionários da Consolata portugueses formados aqui e enviados em missão para Moçambique. A minha vocação missionária está estreitamente ligada a Fátima. Leiria-Fátima é a minha diocese. Aqui ingressei no Seminário dos Missionários da Consolata em Outubro de 1978, ainda adolescente. Trazia esperança na bagagem. Eramos meninos com certezas e com dúvidas que ainda precisavam do afecto prolongado da família. Procurávamos algo mais e tentámos parecer valentes. Assim crescemos e amadurecemos. Os primeiros anos de formação foram vividos aqui à sombra de Nossa Senhora. Aqui fui ordenado há precisamente 25 anos. Daqui parti para a Missão e volto com muito gosto e saudade.
A minha vida missionária foi vivida quase sempre em Moçambique. São 22 anos de missão, graças a Deus, vividos em diferentes zonas. De norte a sul deste país nosso irmão: Niassa, Inhambane, Maputo e agora Tete.
Um missionário não se prepara para ser bispo. Pessoalmente não o desejava e também não o esperava. Apenas queria continuar a ser missionário em Moçambique. Por isso, quando em nome do Papa Francisco, me foi perguntado se aceitava a nomeação para Bispo de Tete, fui apanhado de surpresa. Aceitei com confiança esta missão pois fui chamado a ser um bispo missionário.

6 - A Diocese de Tete é uma igreja local viva, com muitas potencialidades. Tete é uma das primeiras regiões de Moçambique onde chegaram os arautos do Evangelho. Em meados do século XVI. A evangelização teve altos e baixos. A diocese de Tete, criada em 1962, é enorme, com uma superfície de 100.724 km2, maior que Portugal, com uma população de 2.764.169 habitantes, sendo os católicos 23% da população total. Existem 33 paróquias/missões, algumas das quais sem padres ou irmãs residentes. Há regiões com uma forte implantação da Igreja Católica e outras zonas que foram privadas da presença dos missionários durante décadas.
Dar assistência religiosa às zonas mais periféricas e abandonadas e ao mesmo tempo responder aos desafios pastorais emergentes, sobretudo da pastoral urbana e juvenil e dos novos movimentos religiosos (seitas), são as prioridades da diocese. Nestes 9 meses como bispo percorri a diocese de norte a sul, de leste a oeste. Visitei todas as missões, cheguei a lugares onde ainda não tinha chegado nenhum bispo. Criei 3 novas paróquias e este ano vou criar outras três. Deus tem-me dado saúde, força e a vontade e assim aumenta a minha fé e a minha gratidão

7 - A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. A minha presença na Europa tem como objectivo procurar reforços e meios. Tenho batido a muitas portas. Nem todas se abrem pois as congregações vêm-se com poucos membros e já de idade avançada. Quem visitar as nossas casas religiosas em Portugal, até poderá ficar com a impressão de que a obra está em vias de extinção.
E lanço-vos aqui uma provocação. Nunca se falou tanto em missão, ou voluntariado missionário entre nós, como nos tempos que correm, e isso é bom, mas Deus pede mais. Pede entrega e compromisso. Pede vidas cheias de esperança, pede homens e mulheres comprometidos para toda a vida com o desafio missionário de levar a mensagem de Cristo a quem ainda não o conhece. Os missionários, a família da Consolata, sempre foram e hão-de ser homens e mulheres de esperança.
É que celebrar não é apenas recordar o passado ou corremos o risco perder de vista o caminho que se abre á nossa frente. Celebrar é também comprometer-se com o futuro, é ousar, é ser participante de outros começos e do crescimento. É alimentar o que tomou corpo ao longo de 75 anos, que deve ser estímulo para continuar generosamente a obra missionária.
Também a história de comunhão missionária entre Portugal e Moçambique deve ter um futuro. Há espaço e necessidade para uma colaboração em todos os sectores, num espirito de dar e receber. Com a responsabilidade e o orgulho do nosso passado, mas sobretudo com a esperança e vontade de erguer e participar no futuro que temos pela frente. Cristo precisa de nós. Atrevemo-nos sempre a segui-Lo.

D. Diamantino Antunes IMC, Bispo de Tete, Moçambique