“As criticas ao Sínodo da Amazónia fazem parte do processo sinodal”
05/10/2019
Três bispos colombianos que vão participar no Sínodo da Amazónia passaram por Portugal a caminho de Roma e falaram das suas expectativas sobre o sínodo da História da Igreja que criou mais expectativas e atraiu mais críticas, antes mesmo de começar

Joaquín Humberto Pinzón Güiza tem 50 anos, é missionário da Consolata, Vigário Apostólico de Puerto Leguízamo-Solano e Bispo titular de Ottocio, na Colômbia. Diz ter ficado muito agradado por ter sido escolhido para a comissão de preparação do Sínodo, representando o episcopado da Colômbia. Depois de participar em múltiplos encontros de preparação do chamado Instrumentum Laboris, agora, e a caminho de Roma, diz sentir-se muito expectante por este Sínodo e não teme os críticos: “Que deixemos falar o Espirito, para que o Espirito suscite em todos nós novos caminhos, para a Igreja que acompanhamos, e que o Espirito suscite também propostas para que cuidemos da casa comum, que é a obra criadora que Deus nos entregou”, diz em entrevista aos Media da Consolata.

Já Francisco Javier Múnera Correa, 63 anos, Bispo de San Vicente del Caguán, Colômbia e também missionário da Consolata, antes mesmo de chegar a Roma e participar no Sínodo, já pensa no pós-sínodo. “O mais importante vai ser o pós-sínodo. Sobretudo, o compromisso nosso, voltando às nossas Igrejas particulares, que este ajude os nossos povos a recuperar a cidadania, na perspetiva de uma ecologia integral”.

Omar de Jesús Mejía Giraldo, de 53 anos, Arcebispo de Florencia, também na Colômbia, tem uma vantagem sobre os outros dois: já participou num sínodo, o Sínodo dos Jovens. E diz: “mais do que escutar muito, eu quero aprender. Que este Sínodo me suscite criatividades pastorais na minha província”.

Um sínodo incómodo
Nenhum dos três foge à pergunta sobre o porquê deste sínodo ser alvo de tanta resistência e de tantas criticas, vindas sobretudo de dentro da própria Igreja. Mas é o bispo Joaquin Pinzón quem discorre mais sobre o tema, talvez por ter estado na sua preparação. Começa por estranhar o facto que, de tantos sínodos que a Igreja já convocou até hoje, este seja o mais polémico, provocando tanta expectativa e ao mesmo tempo tanta resistência e criticas ferozes, vindas até mesmo de alguns cardeais. E ensaia uma explicação: “Este sínodo está a tratar de temáticas não apenas de tipo pastoral; o Papa Francisco procurou ampliar um pouco o panorama, na linha do compromisso social da Igreja, e responder a toda a problemática ecológica que a humanidade está a viver». Defende que «não podemos desvincular o Sínodo da Amazónia com a Laudato Si”, para, em seguida afirmar que este sínodo “é um exercício muito concreto que trata de por em prática a essa encíclica da Igreja. É um tema social que nos toca a todos, pois o que está em causa é a nossa casa comum. O que está em causa é um modo novo de ser Igreja neste contexto amazónico”, explica. E aponta um segundo aspeto: a procura de “novos caminhos para uma ecologia integral”, ou seja, “uma maneira diferente, nova, de viver as nossas relações: com Deus, com a obra criadora, com o irmão e consigo mesmo. Esta é a ecologia integral que o papa tenta retomar no Sínodo”.
Insistimos sobre o porquê de tanta polémica? Pinzón avança que «a proposta de compromisso com uma nova ecologia, uma ecologia integral, implica rever as práticas de relação com o território”, que, “até ao momento”, - prossegue -, “tem sido de extração, de exploração, de deflorestação. E isso implica por em causa interesses económicos importantes de empresas, de multinacionais, sobre essas riquezas, pois tem aí os seus projetos”, denuncia.

No entanto, Joaquin Pinzón diz acreditar que para a reflexão e para o discernimento que se está a fazer, “essas criticas são muito boas e fazem bem ao processo sinodal”, porque acredita “que contribuem também para a reflexão e a busca da verdade. Da minha parte acho que não a devemos satanizar”. E acrescenta: “A grandeza da Igreja está na variedade, nas diferentes perspetivas que existem dentro dela. Isto é riqueza. Não deve ser motivo para assustar-se. Ajuda a aprofundar a reflexão e nos aproxima do que se procura”, pontualiza.

“Mas, o que é que eles temem?”, insistimos. E a resposta sai natural: “Acho que eles temem que a Igreja se esteja a meter em campos que não são da Igreja. Se lemos as propostas sociais dos últimos papas vemos a riqueza social que houve em cada um deles. Francisco apostou num tema novo para a Igreja, o tema da ecologia, e por ser tão atual, tão pertinente, pode parecer que está fora da doutrina social da Igreja (DSI), mas estou seguro que está muito dentro do que é a DSI”, assegura Pinzón, nomeado bispo pelo atual Pontífice da Igreja há 6 anos.

“O Papa pede-nos audácia”
Ainda sobre os críticos deste Sínodo, Omar Mejía defende que “não temos que ter medo, nem nós a eles nem eles a nós. Porquê? Aprendemos no quotidiano, junto do trabalho pastoral com o povo que é no diálogo que vamos chegar ao acordo. E essa é a experiência bonita de um Sínodo.” E dá o seu próprio testemunho: “Eu participei no Sínodo dos Jovens, e, num momento determinado, houve muita tensão. Acredito que assim vai acontecer também com este Sínodo, mas o Espirito Santo vai trabalhar, e o Papa vai unificando as coisas, como sempre, criando comunhão. Portanto, essas criticas são bem-vindas. A Igreja é una, e isso é o bonito e o interessante”, remata.

Já Francisco Munera refere o profetismo e o ver mais além deste Papa. “Além do tema da ecologia, é de valorizar sobretudo a audácia evangelizadora em que o Papa Francisco nos colocou, além dos temas teológicos que questionam o modelo eclesial que temos”. Gosta, por exemplo, que o tema da ministerialidade na Igreja esteja bastante presente no documento. “O papa pede-nos audácia sobre o modo de a Igreja estar presente nestes territórios. Também o tema da inculturação e o diálogo com as tradições religiosas indígenas. Há uma tradição missionológica que não reconhece essas culturas e que se nos apresenta como aqueles que possuem a verdade absoluta. Este tema do diálogo com as culturas, com as religiões tradicionais será também ele um desafio missionário. Nós queremos valorizar toda a riqueza destas culturas, reconhecendo-as, purificando-as, transformando-as, e não simplesmente desconhecendo-as ou demonizando-as”.

“Sempre teremos latente um cisma”
Questionados sobre a possibilidade real de um cisma na Igreja (recentemente o Papa Francisco foi perguntado sobre isso na viagem de volta da visita que fez a África austral), Francisco Munera apressa-se na resposta, dizendo: “Eu prefiro pensar que não. Sobre este Sínodo, em concreto, espero que tudo saia tão em diálogo, tão concertado, buscando a unidade. Quanto sei, num sínodo tudo é muito discernido, todas as proposições do Sínodo são aprovadas uma por uma».

Já Omar Mejía, que vai para o seu segundo sínodo, explica que toda a metodologia desta reunião magna da Igreja aponta para o diálogo, para a unidade, para a comunhão: “No Sínodo temos a oportunidade de falar todos, quatro minutos. Há debates nos grupos pequenos, e a secretaria recolhe tudo o que os módulos vão aportando. E depois leva à Assembleia do Sínodo. Finalmente se aprova ou desaprova, número por número. O Espirito Santo iluminará o Papa e sairá um belo documento deste Sínodo. Mais, para o Papa, ainda mais importante que o Sínodo em si, é a experiência do Sínodo, a vivencia de todos. Que os participantes possam levar depois sinodalidade às suas igrejas, às suas geografias, à sua diocese, que haja maior participação dos sacerdotes, das religiosas, dos leigos,… E isto é bonito, pois cria comunhão. Há tanta discussão porque na comunhão da Igreja temos a oportunidade de dialogar, de falarem todos, que possamos escutar-nos mais. Sempre teremos latente um cisma. É como quando a gente se casa: ao casar-se já está latente a oportunidade do divórcio. Deus queira que não aconteça, mas sempre estará latente. A missão de um bispo é cuidar da fé e da comunhão do seu povo”, sublinha o primeiro arcebispo de Florencia, arquidiocese recentemente criada pelo Papa Francisco, e às portas da Amazónia colombiana.

Perguntamos, por fim, o que é que a Igreja do sul do mundo tem para oferecer à Igreja ocidental, às igrejas da Europa. “Uma Igreja fresca, que acompanha, próxima, acolhedora, que não tem uma estrutura tão pesada, mais ágil, mais próxima, mais pastoralista”, adianta o arcebispo Omar de Jesús. Já Joaquin Pinzón, desafia a Igreja da Europa a redescobrir a importância da teologia da criação: “Com a experiência que fomos vivendo com o processo sinodal percebi que devemos dizer à Igreja Universal que recuperemos a teologia da criação e que redescubramos aquilo que o Papa chama na Laudato Si: a nossa vocação ecológica. Fazemos parte da obra criadora. A obra criadora não é só um instrumento, matéria prima para tirar proveito, não, é nossa irmã, fazemos parte dela”. Finalmente, Francisco Munera diz que na América Latina há “uma Igreja que procura novas formas de estar entre os povos, procurando novas respostas, novos caminhos. Isso poderia ser muito inspirador para outras Igrejas e também para a Europa”, propõe.

Albino Brás