Liturgia do 2º Domingo da Quaresma – Ano C
17/03/2019
Contemplar e escutar

Gn 15, 5-18; Fil 3, 17-4,1; Lc 9, 28-36

Contemplar e escutar
Diz-nos o Evangelho de S. Lucas: “Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João e subiu ao monte para orar”. É significativo o comportamento de Jesus que se retira frequentemente para o monte a rezar, arrastando consigo os seus amigos a fim de os associar ao seu caminho. Eis os verbos principais desta cena: contemplar e escutar.

Contemplar - “O aspeto do seu rosto e as suas vestes ficaram de uma brancura refulgente”. Jesus transfigura-se durante a oração. A oração verdadeira muda as pessoas. Contemplar transforma a pessoa. O homem torna-se naquilo que contempla com os olhos do coração. Torna-se naquilo que ama e naquilo que reza.
Pede-nos Santo Anselmo, um grande filósofo e teólogo do séc.XII: “Deixa um momento as tuas ocupações habituais, ó homem; entra um instante em ti mesmo, longe do tumulto dos teus pensamentos. Põe de parte os cuidados que te apoquentam e liberta-te agora das inquietações que te absorvem. Entrega-te uns momentos a Deus. Descansa por algum tempo na sua presença. Entra no íntimo da tua alma. Remove tudo, exceto Deus e o que te possa ajudar a procurá-lo. Encerra as portas da tua habitação e procura-o no silêncio”. O cristianismo, mais do que religião da penitência ou da mortificação, é sobretudo a religião do Tabor que nos permite subir com Jesus até ao Gólgota, onde se transfigura e fecunda a nossa dor. Sobe para o alto e Deus te iluminará.

Escutar - É o segundo verbo desta cena do Evangelho. “Este é meu Filho muito amado, escutai-o”. Quem escuta Jesus torna-se como ele. Escutá-lo quer dizer ser transformados por ele. A sua Palavra chama, faz existir, cura, muda o coração, faz florescer a vida, dá beleza e ilumina a nossa noite. A fé judaico-cristã, antes de ser a fé da visão, é a fé da escuta. Escutar é uma palavra-chave na Escritura: encontramo-la 1100 vezes no Antigo Testamento e 445 no Novo. É procurar e acolher a luz de Deus para os nossos problemas pessoais ou comunitários para os aprendermos a gerir à luz da sua vontade. É interpelar a Deus sobre os nossos deveres e sobre os seus planos a nosso respeito. “Fala, Senhor, que o teu servo escuta!”.

Como é bom, Senhor, estarmos aqui!... - É bom, mas não suficiente. Os Apóstolos são convidados por Jesus a descer do monte. O que viram, contemplaram e assimilaram não é para consumo próprio, mas deve ser testemunhado aos outros através das obras de evangelização e de caridade efetiva, escutando o grito dos irmãos. Se o mundo pagão ou descrente se impressiona com o nosso rosto transfigurado, fala mais alto o testemunho da nossa vida. As pessoas não ligam tanto ao modo como ouvimos a Deus, mas como ouvimos e socorremos os nossos irmãos. Oração é indissociável da missão. É bem verdade que, como dizia o grande teólogo Bonhoeffer, “uma pessoa que não é capaz de entrar em solidão com Deus, não é capaz de comunhão com os irmãos”. E vice-versa: “Quem não é capaz de fazer comunhão com os outros não é capaz de solidão com Deus”. Quanto mais rezarmos, mais sentido de Igreja teremos. Mais nos tornaremos corpo de Cristo que reza em nós pelo mundo inteiro. Quanto mais me alimentar de Cristo na contemplação, mais vontade hei de ter de comunhão com os outros, distribuindo o amor, o perdão, a mansidão e a misericórdia. E é isso que dá sentido pleno à nossa vida. Da contemplação à comunhão.

Darci Vilarinho