Liturgia do 29º Domingo Comum – Ano C
20/10/2019
Para sermos pessoas autênticas

Ex 17, 8-13; 2Tim 3, 14-4, 2; Lc 18, 1-8

“É preciso rezar sempre sem desanimar”. No Evangelho deste Domingo, Jesus toma o exemplo da viúva que pede obstinadamente que a justiça lhe seja feita, para ilustrar o seu convite a uma oração perseverante, feita com insistência. Se assim fizermos, “Deus faz-nos justiça”. Quer isso dizer que Deus dar-nos-á o que Ele achar necessário para a nossa vida espiritual e física. Mais do que uma vez Jesus nos pediu que rezássemos assim: sempre, com perseverança, sem desfalecer. S. Paulo fez-nos o mesmo apelo: “Orai sem cessar. Em tudo dai graças. Esta é, de facto, a vontade de Deus a vosso respeito em Jesus Cristo” (1 Tes 5, 17).

«Orai sem cessar». Porquê? Porque a oração é essencial para a pessoa, enquanto ser humano. Fomos criados à imagem de Deus, como um “tu” de Deus, com a possibilidade de estar numa relação de comunhão com Ele. A relação de amizade, o colóquio espontâneo, simples e verdadeiro com Ele – e a oração é sobretudo isto – é constitutivo do nosso ser. Permite que nos tornemos pessoas autênticas, com toda a dignidade de filhos e filhas de Deus.
Criados como um “tu” de Deus, podemos viver em constante relação com Ele, deixando que o Espírito Santo encha de amor o nosso coração, e com a confidência que se tem com o próprio Pai: aquela confidência que leva a falarmos com Ele muitas vezes, a expor-lhe todos os nossos problemas, os nossos pensamentos, os nossos projetos; aquela confidência que nos faz esperar com impaciência o momento dedicado à oração – repartido, durante o dia, noutros compromissos de trabalho, de família –, para nos pormos em contacto profundo com Aquele por Quem nos sentimos amados.

É preciso “orar sempre”, não só pelas nossas necessidades, mas também para que possamos colaborar na edificação do Corpo de Cristo e pela plena e visível comunhão dentro da Igreja de Cristo. Trata-se de um mistério que, de certo modo, podemos compreender se pensarmos nos vasos comunicantes. Quando deitamos mais água num dos vasos, o nível do líquido eleva-se em todos eles. O mesmo acontece quando alguém reza. A oração é uma elevação da alma para Deus, para O adorar e Lhe agradecer. Por isso, de modo análogo, quando alguém se eleva, também os outros se elevam.

Como é que podemos “orar sem cessar”, especialmente quando nos encontramos imersos no turbilhão da vida quotidiana? Orientando a alma e a vida para Deus, fazendo a Sua vontade: estudar, trabalhar, sofrer, descansar e, até, morrer por Ele. E chegar ao ponto de já não conseguirmos viver, no dia-a-dia, sem nos pormos de acordo com Ele. Assim, o nosso agir transforma-se numa ação sagrada e o dia inteiro torna-se uma oração. Pode ser um desejo e uma busca do Senhor, uma voz que chega ao céu, uma súplica, um gemido, um canto de louvor e ação de graças, um pedido de perdão.
O objetivo último é vivermos configurados a Cristo “na escuta e meditação da Palavra de Deus, na consciente e ativa participação da vida litúrgica e sacramental da Igreja, na oração individual, familiar e comunitária, na fome e sede de justiça, na prática do mandamento do amor em todas as circunstâncias da vida e no serviço aos irmãos, sobretudo os pequeninos, os pobres e os doentes” (João Paulo II — Vocação e Missão dos Leigos na Igreja e no Mundo, 56).
Neste Dia Missionário Mundial que a nossa oração seja também para que a nossa Igreja anuncie o Evangelho a todos os povos e todos nos convertamos ao seu amor.  

Darci Vilarinho