Liturgia do 15º Domingo Comum – Ano A
16/07/2017
A semente contrariada

Is 55, 10-11; Rm 8, 18-23; Mt 13, 1-23

Semear é sempre um acto de fé e de esperança na semente e na terra, como viver é sempre um acto de fé em Deus e no homem. Os arqueólogos encontraram nos túmulos dos faraós, dentro das pirâmides do Egipto, sementes de milhares de anos que ainda germinavam. Uma semente, mesmo depois de milhares de anos, não perde a sua força: é ainda capaz de germinar. Também o homem nunca perde a sua identidade de filho. Por trás dos caminhos que trilha, das pedras que esconde e dos espinhos que o dominam, está essa terra boa, essa terra mãe que acolhe a semente e produz abundantemente.

Uma catástrofe anunciada - A parábola da semente contada por Jesus é a história de uma catástrofe. Tudo começa na esperança, mas depois... Os pássaros comem as sementes. Os espinhos sufocam-nas. O terreno cheio de pedras não deixa criar raízes. Tudo vai pela água abaixo. “Mas”... no meio do campo de concentração de Auschwitz, o padre Maximiliano Kolbe oferece a sua vida para salvar outras vidas e reacende a esperança. Como Cristo no Calvário cujo sacrifício deu frutos de salvação. É a semente que produz cem por cento. A verdadeira semente do reino. Cada um de nós pode ser uma semente de vida neste mundo de contrastes. É com os olhos de Jesus que é preciso ler estas histórias aparentemente catastróficas. A sua palavra embate-se com a nossa cegueira ou recusa, porque Deus respeita a nossa liberdade. Podemos acolher ou não acolher a semente do seu reino.

Semear com profusão - Mas Deus é um semeador generoso, quase esbanjador. Semeia com prodigalidade por toda a parte, sem olhar o tipo de terreno: no caminho, no meio de pedras, entre os espinhos ou em terra boa. É a imagem de um Deus de esperança e de misericórdia, generoso distribuidor dos seus dons: ama a todos indistintamente, quer que a sua palavra chegue a todos os corações. Na vida e na cultura de todos os povos, mesmo naqueles que ainda não foram evangelizados, há dons e valores que têm a sua origem e plenitude naquele Deus que é Pai de todos e a todos ama com generosa liberalidade.
O anúncio missionário do Evangelho de Jesus faz crescer esses valores e leva-os á perfeição. Porque a verdadeira semente é a Palavra de Deus, é o próprio Jesus, o Verbo de Deus incarnado, dom do Pai a toda a humanidade. É uma semente que tem potencialidades infinitas: oferece a todos a salvação, abolindo todas as barreiras. No mundo, que é o campo de Deus Pai, não há pessoas ou realidades irrecuperáveis. Deus oferece a sua salvação a todos, sem excepção, mas não força ninguém, porque respeita a liberdade de todos. É o fundamento do optimismo cristão, para além de qualquer resistência ou recusa. Deus escolheu deixar-se condicionar pelos terrenos que somos nós.
Na história missionária da Igreja há exemplos recentes de tesouros de santidade e de graça que surgem lá onde tudo parecia terreno árido, incapaz de produzir. No Sudão – hoje tristemente famoso pela tragédia do Darfur – Deus fez brilhar a santidade de uma mulher chamada Bakhita. No meio dos ódios da tremenda guerra civil do Congo, Deus acendeu a luz de Clementina Anuarite. Na corte imoral do rei do Uganda, Deus fez surgir os corações de ouro dos Mártires Ugandeses. Onde menos se espera, Deus faz surgir os seus dons. É importante cultivar o nosso terreno para que a semente de Deus germine em obras de santidade, de justiça e de paz.

Darci Vilarinho